Tudo que começa, tem um início. A maioria das mulheres que atuam no agronegócio iniciaram suas jornadas no agro desde a infância. Esse elo forte e indestrutível das origens com o ambiente rural são fatores que levam muitas mulheres a desenvolverem soluções sustentáveis em prol do agro e da sociedade, como forma de gratidão, amor e respeito ao campo
Daniele Rua tem 43 anos de idade e é mãe de Joana (8 anos), uma garotinha muito curiosa e cheia de perguntas que fazem os adultos pensarem. Natural de Botucatu, no interior de São Paulo, Daniele teve a infância e a adolescência ligadas às pessoas e à realidade do meio rural, as quais são em grande parte responsáveis por influenciar sua decisão de desenvolver sua trajetória profissional nesse campo. Neta de agricultor, foi muito ensinada e inspirada pelo seu pai – “Deco Rua”, um homem simples e com o coração voltado à terra – a reconhecer a importância de cultivar o alimento e cuidar das florestas como parte fundamental para se alcançar resiliência dos ecossistemas.
Por influência de seu pai, cresceu exposta à lida do campo, o que a fez empática e sensível aos desafios enfrentados pelo produtor rural. Na infância e adolescência, além de frequentar a escola e cuidar das tarefas domésticas, Daniele conta que, mesmo morando na cidade, tinha o “compromisso” de cuidar da horta, tratar as galinhas e os coelhos e, mais tarde, também passou a cuidar dos porcos. Esses animais eram destinados principalmente à subsistência da sua numerosa família de nove membros – inclusive os coelhos, que apesar de “fofinhos”, iriam em algum momento virar prato de alguma das refeições diárias.
Daniele ressalta que “cuidar de animais destinados ao abate” e de sua própria alimentação lhe ensinou muito sobre necessidade, resiliência e, por que não, sobre o amor. Vinda de família humilde, quando “comer carne” só era possível se os animais viessem do próprio quintal, Daniele lembra das palavras de seu pai a alertando: “Não brinque com os filhotes de coelho, dê a eles apenas o que comer, pois, caso contrário, você sofrerá quando forem abatidos”.
Vivências como essas, típicas da realidade rural, somadas às oportunidades de aprofundamento teórico e prático na área de Ciências Agrárias durante sua graduação e vida profissional, a fizeram compreender que o ambiente rural traz consigo uma cultura, valores e formas de analisar a realidade diferente dos que vivem em áreas urbanas. E que, desta forma, tais especificidades devem ser consideradas na hora de gerar soluções que possam de fato aumentar os níveis de sustentabilidade do setor.
Neste sentido da sustentabilidade, Daniele destaca a necessidade de avanços em práticas de equidade de gênero no meio rural, de forma a alcançar altos patamares de integração das mulheres nas atividades produtivas e de gestão dos empreendimentos agrícolas e agropecuários. E ressalta: garantir a presença, voz e tratamento equitativo das mulheres no meio rural, deriva da observação — sustentada por evidências microeconômicas consideráveis — de que mulheres e homens trazem diferentes habilidades e perspectivas para o trabalho, inclusive posturas distintas com relação ao risco e a colaboração.
Na hora de escolher uma faculdade, Daniele optou pela Engenharia Florestal na Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp de Botucatu. Durante a graduação, foi bolsista da FAPESP, ocasião na qual desenvolveu várias pesquisas voltadas à Restauração Ecológica sob orientação da Profª Dra. Vera Lex Engel, segundo ela, uma excelente profissional em quem muito se inspirou e aprendeu sobre trabalho de campo liderado e executado por mulheres.
Especialista em Psicopedagogia e Transformação Digital pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), com mais de 20 anos de experiência na aplicação e desenvolvimento de normas de certificação socioambiental, hoje Daniele é sócia-proprietária e Diretora Executiva da Neocert Certificações, uma certificadora que aplica padrões nacionais e internacionais de sustentabilidade como ferramentas para apoiar a diferenciação de produtos e a adoção de práticas agrícolas e agropecuárias mais sustentáveis. Também é instrutora em treinamentos sobre sustentabilidade e mentora para aspectos de Sustentabilidade e ESG no Programa Startup SP Agro – Sebrae.
“Em um país como o Brasil, onde cerca de 45% da população economicamente ativa é composta por mulheres, as quais em grande parte são ‘mantenedoras da família’, o caminho para termos um Agro mais resiliente e sustentável passa necessariamente por práticas de equidade de gênero, de modo a garantir práticas de gestão mais humanas, coerentes e seguras para os negócios e sociedade”.