Você já ouviu falar sobre o leite A2?

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O leite A2 é produzido por vacas que possuem essa característica em seu genótipo e é estudado como alternativa para uso de alguns pacientes com alergia à proteína do leite, a partir de prescrição médica do alergista, sendo então um nicho de mercado para produtores de leite

No dia mundial do leite, comemorado hoje, vamos falar sobre uma categoria que tem ganhado espaço no mercado: o leite A2! Um tipo de leite que tem sido recomendado por médicos a algumas pessoas portadoras de alergia a proteína do leite de vaca (ALPV) que, vale ressaltar, é um problema diferente da intolerância a lactose.

Você sabia que intolerância a lactose e ALPV são dois problemas diferentes? É preciso esclarecer alguns conceitos antes de entender o nicho de mercado promissor que se estabelece dentro desse cenário.

Outras perguntas podem surgir dentro desse contexto. Qualquer vaca produz leite A2? Como saber qual vaca produz esse tipo de leite? O produtor pode fazer uma seleção dos animais e explorar esse nicho de mercado?

Vem com a gente, que a gente te explica. Primeiramente, vamos entender alguns conceitos importantes para falar sobre leite A2.

Intolerância à lactose X Alergia à proteína do leite

Apesar de ambas serem causadas pelo consumo de leite, a intolerância à lactose e a alergia à proteína do leite de vaca (APLV) possuem características, sintomas e tratamentos diferentes.

A alergia à proteína do leite de vaca é uma reação do sistema imunológico às proteínas presentes no leite de vaca e em seus derivados, como manteiga, queijo, requeijão e iogurte. Na maior parte das vezes, a alergia é causada pela β-lactoglobulina, pela α-lactalbumina e pela caseína, que é a principal. Entretanto, a maioria das pessoas que têm APLV são alérgicas a mais de uma proteína.

Já a intolerância é decorrente da dificuldade do organismo em digerir a lactose, açúcar do leite, devido à deficiência ou ausência de lactase, que é uma enzima produzida pelas células intestinais que consegue quebrar a lactose em glicose e galactose.

Enquanto a intolerância pode surgir a qualquer momento, inclusive na vida adulta, a alergia (APLV) ocorre, geralmente, em bebês e crianças menores de três anos.

Tanto a intolerância quanto a APLV devem ser diagnosticadas por meio de testes laboratoriais, solicitados pelo médico.

Apesar do nome indicar que a proteína que gera a alergia é de leite de vaca, o leite de outros mamíferos, como cabras e ovelhas, são tão antigênicos quanto o de vaca. Estudos mostram que 90% das crianças alérgicas à proteína do leite de vaca também apresentam reação alérgica aos leites de cabra e ovelha, não havendo nenhuma vantagem em seu uso como preventivo de APLV.

Conhecendo as proteínas do leite

Para entender como o organismo responde a essas proteínas, precisamos conhecer a composição desse produto. O leite de vaca contém entre 3% a 3,5% de proteína. Essa composição depende, principalmente, da raça e da dieta dos animais. De forma geral, a proteína do leite é dividida em duas frações, a caseína, que representa, em média, 80% da proteína do leite, e as proteínas do soro, que compõem os outros 20%.

A caseína inclui todos os nove aminoácidos essenciais, fornecendo um importante substrato para o crescimento e o desenvolvimento de crianças e jovens.

A β-caseína compõe, aproximadamente, 30% da proteína total do leite de vaca, e os tipos mais comuns encontrados nos bovinos são A1 e A2. E é essa presença ou ausência desse tipo de β-caseína que está diretamente ligada a maioria dos casos de APLV.

Mas, afinal, o que é o leite A2?

O leite A2 é, então, aquele que possui apenas a β-caseína A2. Embora os alergistas afirmem que o leite A2 não seja indicado para todos os casos, ele pode ser benéficos para muitas pessoas, uma vez que a beta-caseína é a principal causadora da APLV. Os pesquisadores da Embrapa dizem haver evidências científicas de que a beta-caseína do leite A2 não causa reações em pessoas que possuem alergia a essa proteína específica.

Tendo em vista essa esperança para aquela fração da população que não pode ingerir leite por conta da APLV a β-caseína A1, e buscando esse nicho de mercado, o setor lácteo trabalha no melhoramento genético em busca de animais que produzam exclusivamente a β-caseína A2.

Mas qual a diferença entre β-caseína A1 e β-caseína A2?

Naturalmente, as fêmeas de várias espécies, incluindo humanas, produzem apenas a β-caseína A2. Mas, a partir de uma mutação genética que ocorreu há aproximadamente 10 mil anos, algumas vacas passaram a produzir a β-caseína A1. Por esse motivo, a β-caseína A2 é chamada de caseína “natural”.

Essa pequena mudança pode parecer inofensiva, mas é suficiente para alterar a digestão da molécula e levar a outras consequências. Resumidamente, durante o processo de digestão da molécula β -caseína A1 (do leite comum de vaca), é formada a substância chamada beta-casomorfina-7 (BCM-7), responsável por desencadear o processo alérgico.

O leite A2 pode evitar esses transtornos, pois, quando digerido pelo ser humano, não forma a BCM-7.

Outro ponto que merece muita atenção é que o leite A2 só pode ser consumido por crianças com APLV se estas forem alérgicas única e exclusivamente à β-caseína A1. Por isso, é preciso recomendação do médico alergista. Vale lembrar que a maior parte das alergias é mista, ou seja, envolve mais de um tipo de proteína, sendo que nesses casos, o leite não deve ser recomendado.

Atenção!

O leite A2 destina-se a pessoas que não têm intolerância à lactose, mas que se sentem mal após o consumo de leite e derivados. Este produto NÃO se destina a crianças com alergia à proteína do leite de vaca (APLV), salvo sob recomendação de médico alergista.

Qualquer vaca pode produzir o leite A2?

Nem todas as vacas produzem os dois tipos de caseína. Na verdade, existem três possibilidades: o animal que produza apenas a β-caseína A1 (possui genótipo A1A1); vacas que produzam os dois tipos, tanto A1 quanto A2 (possuem o genótipo A1A2) e vacas que produzam, exclusivamente, leite A2 (possuem o genótipo A2A2).

O tipo de β-caseína produzido é totalmente dependente da genética de cada e os mesmos genes também podem estar presentes nos touros reprodutores.

Essa característica é mais comum nas raças de origem europeia (subespécie taurus). As raças Holandesa e Pardo-suíça possuem 50% de chances de produzirem leite A2. Na raça Jersey esse índice é maior: 75%.

Da subespécie taurus, apenas a raça Guernsey, pouco comum no Brasil, possui 100% dos seus indivíduos capazes de produzir leite A2. Já nas raças zebuínas (subespécie indicus), de grande predominância na pecuária nacional, que inclui o gir leiteiro, 98% dos indivíduos têm genética positiva para a produção de leite A2.

As vacas do rebanho devem ser genotipadas, ou seja, é preciso identificar no material genético do indivíduo se o animal é homozigoto (possui os dois alelos) para a produção de leite A2. Para os programas de melhoramento genético, o ideal é que sejam selecionadas as vacas A2A2, que inseminadas por um touro A2A2 terão 100% das filhas com os alelos A2A2.

O teste de genotipagem, feito em uma amostra de material biológico (sangue ou folículo piloso), é a forma mais eficiente de determinar o genótipo para β-caseína do animal. No laboratório, o DNA é extraído, e o marcador genético para essa característica é pesquisado. O resultado desse teste pode ser um dos três possíveis genótipos: A1A1, A1A2 ou A2A2. Apenas animais A2A2 produzem exclusivamente β-caseína A2.

O mercado

A Nova Zelândia, maior exportadora mundial de leite em pó, produz leite A2 desde 2003. O país registrou comercialmente o nome A2 Milk e certifica laticínios e fazendas que produzem exclusivamente o leite A2.

Outro grande exportador, a Austrália, também já ingressou nesse mercado. O curioso é que o produto deixou de ser uma exclusividade de pessoas alérgicas à proteína do leite e está conquistando o grande público. Na Oceania é possível comprar leite e derivados lácteos em diversas lojas e cafés. O produto também já é visto nas gôndolas de supermercados da Inglaterra e dos Estados Unidos.

No Brasil, a marca Letti A2, da Fazenda Agrindus, localizada no município de Descalvado, em São Paulo, foi a primeira a receber a certificação para a produção de leite com Vacas A2A2 e já comercializa os derivados lácteos com esse diferencial.

Muitas outras empresas devem entrar nesse nicho de mercado no Brasil e a tendência é de crescimento do mercado de leite A2.

Mas não se esqueça: se você tem ou conhece pessoas que tenham alergia a proteína do leite, NÃO recomende o uso de leite A2 sem prescrição médica. Converse com seu médico e/ou nutricionista.

Foto: Pixabay

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Sobre o Autor

Marluce Corrêa Ribeiro

Filha de produtores rurais, técnica em agropecuária, jornalista e estudante de Agronomia.

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