Reflexos da Missão aos EUA ao Agro do Brasil

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +

Início de abril eu estava em São Paulo e fui à uma reunião da BBM – Bolsa Brasileira de Mercadorias, tradicional instituição do Agro da qual a Labhoro, grupo que represento, está associada.

Por ocasião daquela visita, fui convidada a dar uma entrevista para ao consagrado apresentador do Canal do Boi, Valter Puga.

Naqueles dias que antecederam a entrevista, o mercado financeiro respirava ares mais animados e otimistas sobre o possível entendimento entre americanos e chineses. Analistas em geral e representantes do Governo dos EUA declaravam que o acordo estaria muito perto de ser fechado.

Essa entrevista que dei não foi ao ar ainda, mas nela eu lembro claramente ter comentado com Puga sobre o presidente Trump estar sendo cada vez mais pressionado pela base do seu eleitorado que é o produtor rural do meio oeste.

Ressaltei que fazia 13 meses que a disputa que havia começado devido a tarifação no Aço e Alumínio, estava mais viva que nunca. E que lá no início do desentendimento, em 2018 boa leva de analistas acreditava que o impasse seria resolvido até agosto (2018) – fato não se confirmou!

Aqui um parêntese – nessa primeira rodada da guerra o clima de tensão só foi crescente não permitindo qualquer entendimento, embora o mercado com interesses financeiros apostasse na possibilidade.

Dito tudo isso, como então seria possível garantir ali, naquele momento da entrevista (início de abril/2019) que o clima de euforia se materializaria em um acordo? Ainda mais se até então as expectativas anteriores não foram sequer alcançadas? Não seria e nem é possível. Quem apostou fichas inteiras nisso perdeu muito dinheiro e muito provavelmente pode perder mais ainda, isso porque investidores estão jogando e fazendo apostas e girando a ciranda financeira.

Naquele momento inclusive chamei a atenção para o fato de o produtor brasileiro aproveitar o momento de prêmios positivos e travar negociações com Chicago e dólar a fixar oportunamente. No caso de um acordo feliz, os prêmios despencariam aqui no Brasil, além disso, nossos vizinhos argentinos que não surfaram a onda de prêmios altos em 2018 viriam com tudo, especialmente com câmbio tão desvalorizado.

Aqui não podemos deixar de considerar que o produtor norte americano que votou em Trump, foi pego de surpresa em 2018 em meio aos trabalhos de plantio de uma safra de soja com área grande e com alta tecnologia empregada e agora esse mesmo produtor entra numa nova janela de plantio acumulando prejuízos e muitas dúvidas.

Mesmo buscando alternativa de demanda em países diversos, como destino para sua soja, o produtor passou a intensificar a cobrança do governo uma resolução imediata para a ausência da China no mercado norte americano.

Hoje Trump sente cada vez mais a pressão em tom irritado de um produtor que votou nele e que perdeu competitividade no mercado internacional.

Conversando com produtores ao longo de todas essas fases dessa guerra comercial – que passou de euforia a incertezas e preocupações, percebi certa descrença do produtor sobre as declarações mais recentes de Trump.

Essas declarações otimistas são geralmente publicadas em redes sociais durante o final de semana e para alguns desses produtores fazem parte de uma estratégia para tentar girar a chave dos fundos de investimentos vendidos na bolsa de Chicago e com isso manter os preços da soja acima do importante suporte de US$ 9,00 /bushel.

Enquanto alguns analistas especializados em agro compram essa ideia de um acordo próximo, outros acreditam que o assunto é mais delicado e deve render maior tempo de debate.

Nessa entrevista que citei logo no início do texto eu inclusive chamei a atenção para os pontos que acredito dificultar os avanços das tratativas e que fazem parte de uma pauta não agro.

Além da questão déficit comercial, existem lacunas enormes de entendimento sobre práticas comerciais chinesas no que tangem direitos de propriedade intelectual, transferência de tecnologia e acesso a mercados.

Violações, roubo de informações, segredos comerciais e respeito aos direitos de marcas e patentes vêm sendo questionados pelos EUA.

Tendo dito tudo isso e depois de 12 dias dessa entrevista, o mercado foi tomado por uma onda menos otimista a respeito do acordo imediato e agora especialistas apostam que novas rodadas presenciais na China e Estados Unidos são necessárias e empurram as expectativas sobre o acordo para fim maio, começo de junho. Será?

De fato, ninguém pode ainda afirmar quando o acordo será selado, e quem o fizer pode queimar a língua.

Mas o que quero deixar aqui bem ilustrado é que nessa guerra que brasileiros que antes estavam lucrando todo o tempo, passaram a ser igualmente prejudicados. Brasil tem ainda muito a comercializar da safra que recém foi colhida e passará a disputar mercado com a Argentina que embora tradicionalmente exportadora de derivados de soja, vem sedenta por fazer caixa num momento de desvalorização cambial.

O resultado disso não poderia ser pior: Os prêmios praticados para a logística exportação nas diversas praças brasileiras cedem.

Hoje, 1 mês depois, o acordo entre China e Estados Unidos não foi selado e o cenário de preços está mais frágil ainda pelo clima adverso nos Estados Unidos que motiva uma onda especuladora sobre provável aumento de área de soja.

Os preços na Bolsa de Chicago para o contrato de soja Maio/2019 estão cotados a US$ 8,3025 bushel.Um forte abraço e até Junho,

Compartilhar.

Sobre o Autor

Andrea de Sousa Cordeiro

Andrea Sousa Cordeiro, formada em Direito pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI. Com 21 anos de experiência em consultoria no mercado agrícola, com participação em cursos, treinamento e palestras n Brasil e Estados Unidos. Atua com foco destacado na área comercial, sistemas de trocas, derivativos cambiais, sistemas de hedge na BM&F e CME e leilões CONAB. Cursando MBA em Agronegócio pela ESALQ. Criadora do Blog Missão Mulheres do Agro que também dá nome a um Movimento Nacional de Valorização da Mulher do Agro, cujos destaques são circuitos de palestras e viagens técnicas para destinos como Estados Unidos, Argentina e China para público exclusivamente feminino.

Deixe Seu Comentário