terça-feira, agosto 21

Pensando Fora da Caixa

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Primeira engenheira civil pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp/SP), primeira mulher a ser aceita em um mestrado em Engenharia Agrícola na California Polytechnic State University (Cal Poly/Estados Unidos), primeira professora do curso de Engenharia Agrícola da Unicamp, primeira doutora pela Michigan State University (MSU/Estados Unidos).

Pioneirismo e inovação. Essas são as marcas na vida de Irenilza de Alencar Nääs. “Toda a minha vida, acadêmica e pessoal, foi saindo da caixa, sempre pensando além do que era me dado para pensar. Isso talvez seja uma característica minha”, contou durante uma longa e prazerosa conversa na sala sete do segundo andar do prédio da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri/Unicamp, Campinas/SP). Mesmo após quase quinze anos de aposentadoria, a plaquinha com o nome de Irenilza continua fixada na porta. “Estou sempre aqui, como voluntária, por isso ainda tenho a minha sala”, explica.

Filha de pai cearense e mãe paraibana, Irenilza nasceu em Maceió, no Alagoas, em 1951. Três anos mais tarde, mudou-se para João Pessoa, na Paraíba, onde estudou no Colégio de Irmãs Lourdinas e também no Liceu Paraibano. Devido ao trabalho do pai, auditor fiscal, toda a família se mudou para Campinas. E foi ali que se estabeleceu e criou raízes. Estudou no tradicional colégio Culto à Ciência, o mesmo de Santos Dumont. “Mas não sou do tempo dele”, brinca. E, em 1970, ingressou na Unicamp. “Sempre gostei muito de matemática, então achava que tinha aptidão para a área de exatas”. Irenilza se formou engenheira civil em 1974 e, no mesmo ano, casou-se com o sueco Bengt e partiu para a Califórnia para, junto do marido, fazer mestrado. Com grande esforço da família, chegou aos Estados Unidos com uma promessa de bolsa em Logística, na área de engenharia de transportes. Porém, ao entrar na sala do professor que seria seu orientador, as coisas não saíram como o esperado: “Sou a Irenilza, do Brasil, que trocou correspondências com o senhor. Daí ele se virou para mim e, com um olho arregalado, disse: mas você é mulher! Eu respondi: isso eu não posso mudar. Ele continuou: você é engenheira civil! Isso eu também não posso mudar. Uma mulher engenheira civil me soa tão mal quanto um homem telefonista. Não posso orientar você”.

“Meu mundo desabou”. Com apenas 24 anos e todas as incertezas do mundo, Irenilza foi aos prantos procurar o Diretor de Estudos Internacionais. Como ele estava em reunião, ficou esperando, sentada em uma cadeira, com uma caixa de lenço na mão e um balde de lixo ao lado. Um senhor que estava na diretoria também aguardando, incomodado, sentou-se ao lado da desolada Irenilza e quis saber o que havia acontecido. A jovem explicou toda a sua situação ao senhor, que logo perguntou: “Você não quer fazer seu mestrado em Engenharia Agrícola? Você pode se adaptar”. Mesmo “sem entender nada de bicho nem de engenharia agrícola”, Irenilza secou as lágrimas e foi conhecer o departamento. Caminhando e conversando, um pouco receosa, a jovem aceitou a proposta. “Ele me contou o que era engenharia agrícola e me conquistou. Tive muita sorte com esse encontro, pois, no futuro, o Edgar Carnegie veio a ser o meu orientador”.

“Fui carregada pelo destino. Aprendi com isso que as coisas não são de tudo ruim. Sempre você consegue tirar alguma coisa positiva das situações”

Desse modo, faltava para Irenilza regularizar a sua situação para começar os estudos. Para ser aceita e ter direito a bolsa, a jovem deveria passar pelo SAT (Scholastic Assessment Test). “Quando saiu o resultado, aquela lista imensa pregada na parede da faculdade, fui procurar meu nome a partir dos últimos e me desesperei e comecei a chorar ao chegar ao meio da lista sem encontrá-lo. Apoiada pelo marido continuei a busca. Enfim encontrei meu nome. Eu fui o primeiro lugar”.

O maior resultado no SAT em uma faculdade com mais de dezesseis mil estudantes abriu muitas portas. Prontamente transferida, a mestranda passou a fazer aulas de zootecnia, o que garantiu a base intelectual e os primeiros entendimentos sobre ambiência. “As trocas térmicas, as leis da termodinâmica, trouxe da engenharia. O que me faltava era o conhecimento acerca do animal, o sistema onde estava havendo as trocas”. Carnegie emprestou à estudante uma barraca e um saco de dormir e pediu para que acampasse na pocilga, na parte experimental da faculdade, e que observasse os animais. “No início eu fiquei brava, porque eu ficava fedendo bicho, eu fedia porco. Mas no fim eu entendi que aquilo me fez muito bem. Aceitei aquilo numa boa, foi uma experiência fantástica”.

Após a conclusão do mestrado, voltou ao Brasil em 76 e foi a única e se inscrever no concurso para professor de construções rurais e ambiência no novo curso de engenharia agrícola da Unicamp. “Não tinha esse profissional no Brasil naquele tempo. Nadei de braçadas na área. Hoje, é um departamento inteiro, mas, na época, eu dava todas as disciplinas que hoje são ministradas por seis professores diferentes”. Foram quase cinco anos dando aula, formando muitos profissionais até que, em 79, volta aos Estados Unidos para o doutorado, desta vez na Michigan State University.

“Tive uma enorme satisfação de ter sido orientada pelo “Papa” da ambiência na produção animal, Merle Esmay. Ele também era engenheiro civil e sentiu bastante afinidade com o meu trabalho e com meu pensamento. Foi uma pessoa muito especial, com uma visão muito ampla das coisas, multidisciplinaridade muito aguçada. Aprendi muito com ele, visto que a ambiência é multidisciplinar”.

Doutorado finalizado em um ano e sete meses, com direito a uma defesa de tese com seis horas de duração, a agora doutora Irenilza, ao voltar ao País, foi convidada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, Brasília/DF) para montar um programa nacional de engenharia agrícola. “Nesse período, me afastei um pouco da pesquisa, mas entendi como funcionam as agências de fomento no Brasil. Me abriu a cabeça o tamanho do potencial agrícola do Brasil. Conheci líderes da área, o que me deu uma bagagem muito importante”. Na época, foi responsável pela criação do Concurso de Equipamentos Agrícolas Apropriados ao Pequeno Produtor Rural, iniciativa na área do desenvolvimento de produtos visando à mecanização da agricultura.

Irenilza vê em cada pessoa uma oportunidade de aprendizado. “Gosto muito de aprender com as pessoas que são diferentes, pensam diferente e tem algo a me ensinar. Não importa de onde vem o ensinamento, mas ele existe e está nas pessoas. É preciso manter a cabeça aberta a isso”. Foram muitas as viagens internacionais e contato com culturas diferentes que somente agregaram. Tailândia, China, Europa, América Latina e até mesmo representando a Unicamp em evento da Organização das Nações Unidas (ONU), em Boston (Estados Unidos).

“Mas, eu gosto mesmo é de pesquisas e dar aulas”. Assim, em 85, voltou aos laboratórios da Unicamp. Nesta época, tendo que cuidar dos três filhos pequenos e do marido, debilitado por problemas de saúde, Irenilza via na família e nos estudos, uma forma de aliviar um pouco a tensão. “Sempre tive um suporte muito grande da minha família, meu pai, minha mãe e meus irmãos, a gente se ajuda muito. E, para espairecer, me enfiava nos estudos. Isso me ajudou muito. A minha profissão foi o meu grande porto seguro”.

Mãe do Olof, Thor e Leif, “os três vikings que descobriram as Américas” e avó da Isabela e do Luca, família e profissão muitas vezes se misturaram na vida de Irenilza. “Levava a convivência com alunos para dentro de casa e ao contrário, participávamos de congressos e íamos todos juntos, alunos e meus filhos também. Virava noites no laboratório trabalhando, junto dos alunos e filhos”. Brava e exigente com os estudantes, os laços criados em sala de aula são conservados. “Mantenho com meus alunos uma amizade muito boa, que fica para sempre. Tenho uma história com cada um, a ponto de me chamarem de mãe acadêmica”.

Inovadora, muitas vezes Irenilza não foi compreendida, como neste caso nos anos 80: “Nunca vou esquecer uma vez no Anhembi. Eu falava naquela época como o aquecimento global e as mudanças climáticas iriam interferir no sistema de produção. Somente o Osvaldo Penha Ciasulli acreditava e publicava o que eu escrevia. Propusemos um curso para debater o tema e somente cinco pessoas se inscreveram”, conta às gargalhadas. “Até abrindo de graça ninguém se interessou. As pessoas não tinham sensibilidade para esta questão, mas o Osvaldo acreditava e essa é uma coisa que me emociona muito”. A recompensa tarda, mas o reconhecimento enche Irenilza de orgulho: “Quando vejo a aplicação daquilo que falei é a glória, sem brincadeira, é a glória! E acho que essa é a função maior do professor, passar o conhecimento e que esse conhecimento chegue ao produtor. Quando isso ocorre, fico numa alegria muito grande, sensação que consegui formar pessoas que tenham o efeito multiplicador”.

Sem dúvidas uma mulher a frente do seu tempo, que venceu muitas dificuldades impostas pela vida, como o preconceito. Mantém ainda hoje o ensinamento do pai: “temos que aprender uma coisa nova todo dia, senão aquele dia seria perdido”. São mais de cem artigos, dezenas de capítulos e livros publicados. Desenvolveu produtos tecnológicos e softwares, como o VENT, ventilação para suínos e aves, e um programa de vocalização animal. Já palestrou em diversos lugares do Brasil e do mundo, orientou e supervisionou centenas de pesquisas, projetos e trabalhos. Premiada e homenageada no País e no exterior, atualmente é diretora da Fundação Apinco de Ciência e Tecnologia Avícolas (FACTA, Campinas/SP), e atua também na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD, MS) e na Universidade Paulista (UNIP, São Paulo/SP). Sempre ávida por novidades, se reinventa a cada dia.

Texto originalmente publicado na edição de agosto de 2013 (ed. 76) da Revista feed&food, Editora Mulheres de Destaque

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Sobre o Autor

Vanessa Sabioni

Graduada em Egenharia Agrônoma e Mestre em Fitopatologia pela Universidade Federal de Viçosa – MG. Atualmente cursa o MBA em Marketing ministrado pela Esalq-USP. CEO e Fundadora da Rede Digital AgroMulher.

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