Pecuária leiteira: gestão em tempos de crise e exemplo de perseverança

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O produtor de leite não precisa que ninguém que lhe diga o quão difícil pode ser empreender neste ramo no país. Ele sabe. E embora o Brasil seja o quarto maior produtor de leite do mundo, segundo dados da Embrapa Gado de Leite, o setor não desfruta do melhor cenário político para continuidade da produção.

Pequenos e médios produtores, especialmente, sentem-se desmotivados. Razões não faltam: baixa remuneração, custos altos de operação e pouco incentivo governamental figuram entre principais fatores para queda na produção. Só em Mato Grosso, segundo a Aproleite, a captação reduziu em 18% neste ano. Ainda assim, o mercado se demonstra cada vez mais exigente: o consumo brasileiro de leite e derivados, bem como as importações, seguem em ascensão.

Mesmo que as recentes notícias das medidas adotadas pelo atual governo, quanto às importações de leite em pó e derivados somem (com razão!) a lista de preocupações dos produtores do país, um bom plano de gestão ainda é a melhor saída.

Mesmo a par de todos os entraves para se manter na atividade leiteira, o que o produtor rural pode não saber, ou pelo menos não ainda, é que a advocacia rural e inúmeras ferramentas de gestão podem reestruturar o negócio leiteiro, mantendo-o seguro juridicamente e bem administrado. Cases de sucesso não faltam, a exemplo da produtora Marlene Kaiut, à frente de uma propriedade modelo em Carambeí, no Paraná.

Aos 24 anos e desempenhando trabalho exclusivamente doméstico, Marlene mudou os rumos da propriedade familiar, prestes a ser vendida, reestruturando-a em um modelo de sucesso no ramo leiteiro: “Eu não tinha envolvimento com as vacas, mas eu gostava. Então eu sabia que se conseguisse uma boa administração, uma administração melhor e com um pouco mais de dedicação, a gente conseguia mudar, reverter um pouco quadro que a gente estava”.

O cenário que a jovem produtora encontrou contava tanto com as dificuldades comuns a tantos pequenos produtores, como gestão e recursos financeiros, como quanto com a particular resistência machista do meio rural, contando inclusive com a demissão de funcionário, resistente em trabalhar sob chefia feminina.

Persistente, com formação acadêmica em Administração, Marlene montou um plano de ação conjunto de administração, assistência técnica e financiamento, chegando ao equilíbrio necessário para manter a propriedade autossustentável e referência não só no setor leiteiro, como de liderança feminina.

Entretanto, culturalmente, as propriedades rurais ainda são enxergadas como extensão da própria família, porém com papel de chefia centrado nas figuras masculinas, o que pode não refletir a melhor escolha para a continuidade da produção. Em primeiro lugar, é preciso um enfrentamento conjunto e racional dos membros da família sobre o real cenário financeiro, administrativo e jurídico em que se encontra a propriedade, por mais difícil que pareça. Em seguida, um plano estruturado, traçado em conjunto e sob orientação de profissionais capacitados que avaliem:

  1. As contratações da empresa, para verificação de conformidade a legislação trabalhista;
  2. Possibilidades tributárias mais favoráveis ao caixa do empreendimento;
  3. Revisão de todos os contratos, para identificação de possíveis demandas;
  4. Análise cuidadosa de contratos bancários de crédito rural, quanto a juros e condições de pagamento ou, ainda, renegociação de dívidas e defesa em execução;
  5. Regularização fundiária e de licenças para operação;
  6. Regularização ambiental da propriedade.

Ainda, o estudo de possibilidades de exploração de novos nichos dentro da propriedade pode trazer bons resultados. Atividades relacionadas ao turismo sustentável ou, ainda, de criação de reservas particulares podem enriquecer a propriedade e elevar sua avaliação frente ao mercado, cada vez mais exigente.

O trabalho é árduo, mas não faltam ferramentas de gestão para que o produtor continue desempenhando seu melhor papel: levar o leite à mesa!

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Sobre o Autor

Rebeca Youssef

Advogada atuante em Cuiabá MT, sócia fundadora do Youssef Guedes Advogados. Formada em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Escreve semanalmente sobre Direito Rural e Agronegócios no @advocaciarural e integra o corpo jurídico AdvAgro Conteúdos Especializados

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