quinta-feira, setembro 20

Os chineses podem acelerar o desenvolvimento do Agronegócio no Brasil, afirma Alan Fernandes, presidente do Banco de Investimentos Haitong

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A China é o maior parceiro comercial do Brasil, sendo responsável por 25% da balança comercial brasileira, de exportação e importação. Além disso, em 2017, cerca de 15% dos investimentos diretos estrangeiros no Brasil foram feitos por empresas chinesas. O presidente do Haitong Banco de Investimentos do Brasil é considerado uma espécie de ministro das relações exteriores Brasil-China. Ele afirma que o Agronegócio tem sido um sólido pilar da economia brasileira, afirmando o interesse chinês nesse segmento e a importância das mulheres gestoras do Agronegócio. Confira a entrevista exclusiva dada por Alan Fernandes ao Agromulher:

Como é a relação Brasil-China em relação ao Agronegócio? Qual é o apetite dos investidores chineses?

O setor de agronegócio brasileiro é referência mundial em termos de produtividade e volume. Temos que trazer alguns fatos que reforçam a percepção estratégica do investimento chinês sobre o segmento do agronegócio: A China precisa, diariamente, colocar cerca de 4,5 bilhões de refeições nas mesas de sua população, considerando apenas as refeições essenciais (café da manhã, almoço e jantar). Somente este dado já nos mostra a dimensão potencial que o agronegócio tem dentro da estratégia chinesa de garantir a segurança alimentar de sua população. Além disso, a China passa por uma mudança nos hábitos alimentares, trazendo maior consumo de proteína vegetal e animal para suas refeições.

Dois países no mundo têm dimensão geográfica e eficiência comprovada em incremento de produtividade, o Brasil e os Estados Unidos, capazes de atender as demandas internas e também a necessidade da população chinesa em alimentos.

Os investimentos Chineses têm sido mais intensos nos últimos 5 anos, através da aquisição de empresas brasileiras que atuam na produção de proteína vegetal. Na cadeia de proteína animal também já se observa o aumento do interesse das empresas chinesas em formar parcerias societárias com empresas locais. O Haitong por exemplo assessorou alguns desses investimentos e tem sido recorrentemente consultado pelas empresas chinesas sobre outros ativos.

Um ponto que se deve destacar é que o investimento chinês não se faz de forma isolada sobre as empresas locais, quer por aquisição, quer por acordos comerciais. Tão relevante quanto a garantia no suprimento está que a carga chegue de forma competitiva ao mercado chinês, daí, que outros investimentos a setores profundamente associados ao agronegócio também estejam passando por grande procura. Destaca-se a parte de infraestrutura e logística, quer nos portos, ferrovias e até mesmo em alguns dos corredores rodoviários.

Quais são as vantagens e os desafios de um exportador brasileiro que quer comercializar com o mercado chinês?

Sem dúvida a vantagem é atender um mercado consumidor gigantesco. Estima-se que a classe média chinesas seja algo em torno de 350 milhões de pessoas, com alto poder de consumo, e que estão cada vez mais, conforme já comentado, buscando incrementar a dieta diária. Porém os desafios são proporcionais: 1) volumes de pedidos são sempre em quantidades muito maiores ao que temos eventualmente em produções individuais e mesmo juntando grupos de fornecedores; ii) a necessidade de obtenção de autorizações junto às entidades chinesas para exportação de tais produtos para a China, assim, existe todo um processo burocrático a ser ultrapassado, e que pode chegar até 12/18 meses para obtenção.

Há que se ressaltar, entretanto, que se deve tomar cuidado com a cuidadosa identificação de quem são as empresas e se estão negociando com as pessoas que têm capacidade efetiva de decisão.

O modelo de entrada do investidor chinês pode passar pela formação inicial de uma parceria comercial, no qual se vai estabelecendo uma relação de conhecimento mútuo que pode se transformar em parceria societária. Buscar apoio de entidades credíveis, tanto do lado brasileiro quanto do lado chinês é um fator chave no sucesso do estabelecimento de parcerias duradouras e positivas para ambos os lados.

Cite duas características-chave que distinguem os investidores chineses dos demais investidores ao redor do mundo?
Poderia destacar vários aspectos, mas sem dúvida a visão de longo prazo e a certeza eu o mercado brasileiro tem capacidade para atender suas demandas, apesar de algumas deficiências, tais como infraestrutura e legislação trabalhista mais complexa.

Porém as negociações não são simples, há o fato da língua em si e há aspectos culturais que podem gerar frustrações para os dois lados, A cultura chinesa é extremamente peculiar e não se pode querer interpretar e agir considerando que os chineses pensam na mesma estrutura lógica que o ocidente.

O investidor chinês busca retorno, como qualquer investidor, e não se pode pensar que não são habilidosos em uma mesa de negociação. São negociadores a mais de 5000 anos, são pacientes e tem muito claro o planejamento definido para seu negócio. Existe ainda o aspecto de ser uma sociedade em que o estado tem um papel muito forte, assim, podem existir fatores externos que aceleram ou retardam a decisão de formar parcerias comerciais e societárias.

Temos que lembrar que somos antípodas geográficas para a China, isso gera uma desconfiança mútua inicial pois é como se houvesse o desbravamento de um novo mundo, mesmo extremamente conectado pelas plataformas digitais.

O Haitong foi adquirido pelos chineses em 2015 e nestes últimos 3 anos tenho tido o privilégio de estar em contato direto com a cultura e o modus operandi dos investidores chineses. É um processo longo, porém extremamente rico pessoalmente. A vantagem é que por ser o Haitong um dos líderes no mercado de banco de investimento da China, temos acesso de forma objetiva a quem são os decision makers e principais interlocutores nas empresas, sejam elas SOE’s (state owned enterprises) ou privadas.

O que a China espera das relações político-econômicas com o novo presidente?

Esse é um ponto crítico. A China tem claro que o Brasil desempenha um papel fundamental na região e por seu mercado interno é um destino natural para seus investimentos, entretanto, a garantia de não distinção da origem dos recursos se vindos do estrangeiro, a possibilidade de entrada e retorno do capital de forma clara, o respeito aos contratos são preocupações naturais deles e de qualquer investidor estrangeiro.

Voltando ao que já foi citado, ser o maior parceiro comercial, a China está acompanhando com cuidado a evolução do cenário político e as manifestações referentes à continuidade na relação Brasil-China nos altos níveis hoje praticados.

Atualmente estamos acompanhando o boom das mulheres executivas chinesas. Como os Chineses hoje enxergam as mulheres nos negócios?

De forma extremamente positiva. A sociedade chinesa já veio desde o século passado incorporando mais e mais as mulheres na sociedade, através do acesso às universidades e ao mercado de trabalho.

É um mercado competitivo desde as escolas básicas, e cada vez mais o conceito de meritocracia se expande, de forma indistinta.

Tenho oportunidade de constantemente me reunir com executivas em cargos dos mais elevados níveis tanto nas estatais quanto nas privadas, e isso diria até que de forma mais acentuada até mesmo que aqui no Brasil

Qual o conselho para mulheres gestoras do agronegócio que querem estabelecer relações comerciais com a China? Irão encontrar alguma barreira cultural?

As barreiras culturais são iguais para todos os gestores. Assim diria, que essencial é se cercar de assessoria adequada e qualificada para acessar os nomes e entidades corretos.

É muito fácil se perder na estrutura de uma empresa chinesa e com a abordagem equivocada se pode perder um bom negócio.

Existem empresas que são geridas por chineses e focados em prestar uma primeira assessoria sobre os aspectos culturais, que vão além dos hábitos alimentares, mas incluem as questões da etiqueta e da hierarquia corporativa que podem gerar, mais uma vez, frustrações pelo lado dos gestores brasileiros.

Como o Brasil e o Agronegócio poderia ser beneficiado com as atuais relações comerciais Estados Unidos x China?

Como citei antes, Brasil e USA tem dimensão e capacidade de suprir seus mercados internos e ainda serem exportadores líderes no cenário internacional.

Assim, um eventual recrudescimento das relações comerciais entre China e USA poderá trazer ainda mais oportunidades aos produtores locais, como já se observa hoje no volume de soja negociado com a China, que vem crescendo nos últimos meses. Entretanto, as questões fitossanitárias precisam ser ainda melhor tratadas pois é um tema fundamental na continuidade de negociações com os investidores chineses.

Os chineses podem contribuir ainda mais no desenvolvimento tecnológico no campo, quer através de máquinas quer através de tecnologia embarcada e por meios digitais, mas é fato que existe o reconhecimento que nesse setor é o Brasil quem tem maior contribuição a dar por conta de nossa vocação natural para o agronegócio.

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Sobre o Autor

Débora Toledo

Advogada pela Puc-Rio, com especialização em direito tributário, MBA em Mercado de Capitais pela FGV/RJ. Possui em habilitção em mercado financeiro e é empreendedora no mesmo setor. Foi sócia em uma gestora para administração de recursos de famílias do setor de agronegócio. Assessora de Investimentos e Influenciadora digital de finanças para iniciantes, leigos e o mundo agro.

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