Mulheres do agro querem participação mais ativa nos negócios: dados das mulheres da gestão, desafios e oportunidades

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Características tipicamente femininas como capacidade de liderança e facilidade na tomada de decisão fazem das mulheres gestoras eficientes como o agronegócio precisa

Texto: Marluce Corrêa Ribeiro – Jornalista e Redatora do Portal Agromulher

A mulher tem deixado para trás o conceito de “sexo frágil” e tomado frente de diversas vertentes dentro do agronegócio, seja em empresas, indústrias, laboratórios ou em suas próprias fazendas e em seus próprios negócios. A figura da mulher na gestão do negócio tem se tornado mais comum e até mesmo requerida por algumas empresas, uma vez que a mulher possui atributos únicos que a coloca em destaque para funções que demandam visão detalhista, atenção e organização. Continue a leitura desse artigo, conheça os dados da presença feminina na gestão no agro e inspire-se na história de duas grandes agro mulheres que atuam na gestão em diferentes setores dentro do agronegócio.

Dados das mulheres na gestão do agro

Inúmeras pesquisas apresentam dados sobre a ascensão da presença feminina dentro do agronegócio. Vamos conhecer alguns desses números e visualizar essa conquista de espaço da mulher do agro.

Um trabalho em conjunto entre o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a Embrapa e o IBGE, no âmbito de um Termo de Compromisso assinado entre as três instituições por intermédio do Programa Agro Mais Mulher, apresentou dados extremamente importantes sobre a realidade das mulheres rurais no Brasil. Um dos mais expressivos mostram que quase 1 milhão de mulheres são responsáveis pela gestão de propriedades rurais. A pesquisa também aponta que juntas elas administram cerca de 30 milhões de hectares, cerca de 8,4% da área total ocupada pelos estabelecimentos rurais no país.

Dos mais de 5 milhões de estabelecimentos rurais identificados no Censo Agropecuário de 2017, 19% têm mulheres como proprietárias, um crescimento de mais de 6% em relação ao censo agropecuário de 2006. Segundo dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da ESALQ/USP, a participação feminina no setor cresceu consideravelmente entre 2004 e 2015, passando de 24,11% para 27,97%, enquanto o número de homens caiu 11,6%.

De acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), houve um aumento de 21% no número de mulheres que ocupam cargos de decisão nas empresas do setor entre os anos de 2013 e 2017.

Vale ressaltar também que a integração entre homens e mulheres tem destaque dentro das propriedades rurais. Prova disso é que a participação feminina é ainda maior (34,75%) quando somadas as mulheres que administram o estabelecimento agropecuário junto com o cônjuge.

A capacitação profissional por inúmeras plataformas e ferramentas é outro ponto forte dessas mulheres que estão conquistando espaço no agro. Entretanto, os estudos apontaram que apenas 9,6% das mulheres do agro obtêm informações técnicas através de reuniões técnicas ou seminários, enquanto entre os homens, a porcentagem é de 14,3%. No que se refere à participação em atividades associativas, como cooperativas, apenas 5,3% são cooperadas, enquanto 12,8% dos homens participam de algum tipo de associação.

As mulheres têm lutado incessantemente para ocupar seu lugar no agro, inclusive em cargos de gestão, mas ainda passa por inúmeros desafios na carreira profissional. A diferença salarial entre homens e mulheres, assim como em muitas outras profissões e setores, ainda é um desses desafios.

Segundo o Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV Agro), em 2017, as mulheres do agro receberam cerca de 78,3% do que é pago aos homens dentro do setor. A boa notícia, é que, segundo as pesquisas, a diferença salarial entre homens e mulheres dentro do agronegócio é menor do que esse diferencial de salários na economia brasileira em geral, onde as mulheres brasileiras recebem em média 76,2% do salário dos homens (dados do IBGE obtidos na Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios – Pnad).

Visão de mulher na gestão empresarial

Um exemplo claro de mulher do agro que atua na gestão de um negócio, é a carreira de Ângela Joana Schmidtel Klein, que é graduada em Ciências Contábeis e Pós-Graduada em Gestão de Finanças Empresariais. Há 10 anos, Ângela integra o quadro de colaboradores da empresa Roos e, atualmente, é Gestora de Controladoria da empresa.

Sobre sua área de atuação, a gestora relata que quando entrou na empresa, percebeu que as mudanças que estavam ocorrendo na área contábil, a nível Brasil, seriam uma bela oportunidade de realizar um trabalho diferente na empresa. “A contabilidade não seria mais responsável apenas pela apuração de tributos, mas por gerarem informações que se tornariam indispensáveis para a tomada de decisão dos sócios e diretores da empresa. A partir daí, iniciou-se um longo caminho de mudança de cultura e inclusive do setor, que hoje é conhecido como ‘controladoria’. Hoje, me reúno mensalmente com a direção da empresa para falarmos de gestão, resultados e estratégias. Isto não é apenas uma conquista minha, mas de toda equipe de controladoria, que hoje é formada, em sua totalidade, por mulheres jovens e que sabem muito bem onde querem chegar”, relata ela.

Ângela observa que, assim como ela, inúmeras outras mulheres do agro têm conquistado uma ascensão no mercado decorrente de um processo de mudança cultural dentro das próprias empresas, trazido com a evolução das forças de trabalho. “Há pouco tempo, as mulheres costumavam se dedicar ao trabalho doméstico e a criação dos filhos. Hoje ela já compete por vagas iguais no mercado de trabalho (inclusive no agro), principalmente porque investe na sua educação, busca o conhecimento e se atualiza em relação as tendências de mercado. Umas das qualidades da mulher em relação a ascensão aos cargos de gestão deve-se, também, pela sua capacidade de gestão do tempo, pois, em muitos casos, consegue equilibrar tanto sua vida profissional quanto a maternidade, sem deixar de participar do mundo dos negócios”, comenta a gestora.

Visão de mulher gestora de propriedade rural

No âmbito das propriedades rurais, as mulheres também têm assumido o papel de gestoras dos negócios. Muitas jovens têm se interessado pela sucessão familiar. Muitas esposas buscam acompanhar mais de perto o negócio e acabam assumindo parte das funções. E, em alguns casos, as esposas precisam assumir todos os aspectos do negócio da família na ausência do marido. Foi o que aconteceu com Lizelote Paulina Kruger Battistella, que é Artista Plástica, graduada em Administração e Pós-graduada em Iluminação e Design de Interiores. Atualmente, Lizelote é a gestora da propriedade rural da família no município de Carazinho-RS. Ela é responsável pelos colaboradores e por acompanhar o trabalho do responsável técnico, desde a escolha da semente até a colheita e venda do produto.

Lizelote era uma artista plástica bem sucedida quando teve que assumir os negócios da família há 12 anos, quando ficou viúva. Na falta de seu marido, que era o responsável pela fazenda, ela passou por um período difícil de adaptação e sofreu com a desconfiança de muitas pessoas do setor que subestimavam sua capacidade de aprender a cuidar do negócio da família. A questão financeira também foi um grande problema no início, uma vez que o inventário se arrastou por vários anos. Ela relata que no início teve um apoio incondicional de seu pai que era um sábio nos conhecimentos empíricos do agronegócio, uma sabedoria que só se conquista com anos de experiência, trabalho e observação.  “Com a ajuda dos meus filhos e de toda a minha família, hoje posso dizer que sou uma mulher bem sucedida no agro”, comemora ela. A história de Lizelote serve de inspiração para muitas mulheres que precisam, por motivo de força maior, assumir cargos de gestão sem o devido preparo e se deparam com uma realidade desafiadora e que cobra resiliência, busca de capacitação e força de vontade para gerir o negócio de forma eficiente.

Lizelote também concorda que as mulheres têm assumido o seu espaço no agro por competência e pela soma de todas as suas habilidades. “As mulheres são muito competentes, inteligentes, criativas e resilientes. Durante toda a nossa história, a sociedade sempre foi patriarcal, mas conseguimos conquistar nosso espaço dentro do agro”, salienta.

Dentro da propriedade da família de Lizelote, atualmente eles conseguem trabalhar também a sucessão familiar. A mãe hoje pode contar com a ajuda de sua filha, Amanda Battistella, que, segundo Lizelote, entre os seus 3 filhos, é a pessoa mais preparada para a gestão. “Ela cuida da parte financeira da empresa, faz as compras, pagamentos, apresenta relatórios sobre custos, plantios, aplicação de defensivos e de tudo o que acontece na propriedade. Ela é a pessoa que transformou a propriedade em uma empresa muito bem organizada. De uma forma muito natural ela foi assumindo várias responsabilidades para que eu pudesse diminuir o meu ritmo de trabalho”, explica a gestora da propriedade e mãe de Amanda.

Desafios e oportunidades

As mulheres que atuam na gestão enfrentam inúmeros desafios e oportunidades assim como em qualquer outro setor dentro do agronegócio. Para Ângela Schimidtel, “um dos maiores desafios é conseguir ser ouvida, principalmente por estar lidando com um universo que era basicamente masculino. Falar de dólar, estratégia de mercado, gestão de risco, nos primeiros momentos soou um pouco estranho vindo de uma mulher. Mas tive a sorte de trabalhar numa empresa, onde sempre tive a oportunidade de inovar e de ter boa aceitação às mudanças, o que também aumenta a responsabilidade”, salienta.

Mas muitas também são as oportunidades para as mulheres que gostam, entendem e desejam atuar na gestão do agro. Para Ângela, uma das grandes oportunidades para as mulheres, principalmente na sua região, é o campo de trabalho que vem surgindo devido aos homens focarem mais nas áreas de tecnologia, engenharia e agronomia. “Para nós mulheres, sobra um campo de trabalho enorme, inclusive na gestão da propriedade rural. Para isto não é necessário apenas entender qual semente plantar, qual melhor período para o plantio, mas sim, entender de conceitos de lucratividade, custos, margem de contribuição e, neste casos, os cursos de contabilidade e administração são um ‘prato cheio’ para quem quer trabalhar nas áreas de gestão”, aponta ela.

Já para Lizelote, os desafios do agro são como os de qualquer outro negócio. “Temos que estar sempre atentas para as novidades em tecnologias, sementes, fertilidade do solo, previsão do tempo e outros, agregando a esses o conhecimento que adquirimos ao longo de nossa vida. Temos também que reconhecer o talento de nossos colaboradores e trabalhar junto a eles”.

E ela acredita que as oportunidades surgem diariamente no campo de trabalho. “Oportunidades temos todos os dias de aprender mais, conhecer melhor a terra ou empresa em que trabalhamos e ter sucesso com o que queremos conquistar”, finaliza.

Incentivos para as mulheres assumirem a gestão

Mas como as empresas e propriedades podem gerar incentivo e motivação para essas mulheres assumires cargos de gestão? A capacitação, a promoção de oportunidades para a que a mulher tenha voz dentro do negócio, o incentivo ao desenvolvimento de lideranças, tudo isso integra um plano maior que deve ser trabalho dentro das empresas e propriedades rurais a fim de promover a inclusão e alinhamento da equipe de trabalho com um objetivo comum.

Para Ângela Schimidtel, algumas ações são indispensáveis para que haja um trabalho eficiente nesse aspecto de incentivo à mulher para assumir cargos de gestão. “Em primeiro lugar, acredito que as empresas deveriam ter um plano de carreira específico para estes cargos de gestão, com as características bem definidas, principalmente por se tratar de algo novo até para a própria empresa. Desta forma, cada mulher conseguirá identificar seus pontos fortes e trabalhar seus pontos fracos, podendo assim agregar mais valor à organização e a sua marca pessoal. Outra forma, seria a realização de eventos, que possibilitem a participação da mulher, não só como plateia, mas também como palestrantes e organizadoras. Mas a principal ação de todas: ouvi-las mais. Com o passar dos tempos, o sexo frágil acabou sendo substituído pela força, liderança e a capacidade de gestão”, finaliza a gestora de Controladoria da Roos.

Com exemplos de vida como os de Ângela e Lizelote, nós entendemos ainda mais como é possível atuarmos na gestão de empresas e propriedades rurais, liderar equipes, solucionar problemas e ainda buscar realização pessoal e profissional. Mais uma prova de que a mulher pode estar onde ela quiser.

E aí? Gostou de conhecer a história desses homens e mulheres que atuam na gestão dentro do agronegócio? Acompanhe a campanha “De mulher para mulher” e conheça mais histórias inspiradoras das agro mulheres em diversos âmbitos da vida pessoal e profissional.

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Sobre o Autor

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