segunda-feira, julho 23

Marlena Christ: uma história de lutas e vitórias no campo

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A história que eu escolhi para contar, me deixou muito emocionada. Primeiro, porque acompanhei uma pequena parte dela durante os 6 anos em que eles foram meus clientes em uma instituição financeira aqui no Mato Grosso. Segundo, porque é uma história construída com muito suor e trabalho honesto, e que serve de exemplo e inspiração a quem, assim como eu, é apaixonado pela vida no campo.

A protagonista desta história é Dona Marlena Christ, nascida em 30/06/1959.

Dona Marlena conta que nasceu no campo e sempre trabalhou com agricultura. Relata que se sente feliz e realizada por pertencer ao agronegócio, contribuindo para a geração de alimentos e renda para o país.

No dia em que completou 20 anos, no ano de 1979, casou-se com o Sr. Círio Paulo Christ e foram morar com o sogro, trabalhando na lavoura.

Em 1982, quando o filho Leandro tinha apenas 10 dias de nascido, mudaram-se para Dourados/MS, para trabalharem em uma fazenda. Nove meses depois, mudaram-se para Ponta Porã/MS, e em 1988 nasceu seu segundo filho, Joelmir. Lá permaneceram por 13 anos, trabalhando para o mesmo patrão.

No ano de 1994, vieram trabalhar como empregados na Fazenda II Paranaenses, no município de Diamantino/MT, onde estão até hoje.

Dona Marlena conta que o patrão era arrendatário, e usava o nome do seu esposo para movimentações financeiras. Após 6 anos ele faliu. Ela relata que o arrendamento que receberiam pelo trabalho ia se acumulando de um ano para outro, e só eram repassados os juros.

Era um domingo de páscoa receberam uma visita do patrão onde havia vindo informar que estava entregando a lavoura. Com isso, Dona Marlena e Sr. Círio ficaram desempregados.

É muito difícil passar por situações como esta, longe da terra natal, com filhos pequenos para criar. Mas eles sempre tiveram muita fé que as coisas iriam prosperar.

Na segunda-feira, receberam na propriedade o dono das terras e conversaram a respeito da situação em que se encontravam. Ele disse: a partir de hoje o contrato com o patrão de vocês está encerrado, mas se quiserem assumir daqui para a frente, a terra é de vocês. Então fizeram uma sociedade com o filho do dono da área, onde ele entrou com o maquinário e eles com a mão de obra.

Dona Marlena descreve que a vida na fazenda foi sempre de trabalho duro e economia para passar os meses em que não se tinha dinheiro. Sempre se esforçaram para administrar tudo com muita sabedoria, pagar as contas em dia e poder viver de maneira honesta. Conta que juntaram a renda que tinham acumulado e conseguiram comprar um trator e um pulverizador, podendo assim continuar a atividade agrícola na fazenda.

Tudo estava alinhado, as coisas começaram a dar certo, e eles estavam felizes com as conquistas que tiveram ao longo dos anos.

No dia 14 de agosto de 2007, Sr. Círio foi com o cunhado pescar no Rio Claro. Como era de costume ter a companhia de Dona Marlena, a convidou para ir. Como estavam nos preparativos para o casamento do filho Leandro, que seria dali a 2 semanas e iriam receber a visita das irmãs do Sr. Círio, ela resolveu ficar para organizar tudo. Quando estava saindo no portão, ele virou e disse: “Muié, minhas irmãs já tão vindo. ” Dona Marlena respondeu que elas só viriam depois de 2 semanas, e ele reforçou: Não! Amanhã você vai ver, elas estão vindo!

Às 23:00 daquele mesmo dia, Dona Marlena recebeu a triste notícia de que seu esposo havia se afogado e veio a falecer. Momento muito difícil para a família, que foi surpreendida com essa tragédia.

Não houve tempo de viver verdadeiramente o luto, pois as coisas na fazenda estavam em andamento, e mesmo no sofrimento, tiveram que tomar decisões importantes. Como eram 3 famílias e mais o sócio, a área de 400 hectares se tornava pequena e inviável para todos. Foi então que o filho Joelmir decidiu voltar e ajudar o irmão na lavoura, e em conversa com o sócio, compraram a parte dele. Economizaram 3 anos e pagaram o arrendamento e o maquinário para então começarem a tocar a fazenda apenas com a família.

Emocionada, ela diz que uma família pode trabalhar junto, se dando bem e batalhando para conquistar os sonhos e que sua família é exemplo disso.

Diz também que sempre foi muito respeitada na propriedade e nos lugares em que a fazenda tem relações comerciais.

Se reúne com os filhos para a tomada de decisão em conjunto, onde a opinião dela sempre é respeitada. Conta que com os funcionários da fazenda não há preconceito por ser mulher, pois sempre trabalhou muito, mostrando que era capaz de desenvolver qualquer atividade no campo, e com isso adquiriu respeito e admiração de todos. E que o maior preconceito que já presenciou, foi nos salões de beleza da cidade, onde por muitas vezes as produtoras chegam desarrumadas e algumas clientes sussurram: “chegou a roceira.” Mas ela não se intimida. Tem orgulho das suas origens e da vida digna que leva. Reafirma que a terra é uma grande opção de vida e que nenhuma mulher deixa de ser chique trabalhando na roça. Todas têm sua beleza e valor.

Dona Marlena tem 3 netas moram com as mães na cidade durante a semana para estudar, e nos finais de semana se reúnem na fazenda. Faz questão de cria-las próximas da lavoura, e tem orgulho em dizer a elas: a avó de vocês sempre trabalhou na roça, continua trabalhando na roça. Sou, sempre fui e quero morrer sendo PRODUTORA RURAL!

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Sobre o Autor

Mariely Biff

Professora Universitária e Consultora em Agronegócios no estado de Mato Grosso. Também atua como voluntária da ONG Por1Sorriso e é fundadora da ONG Seja Luz.

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