segunda-feira, dezembro 17

Marisa Contreras: uma cafeicultora que não para de inovar

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Entrevistada pelo blog MAS (Mulheres Agricultoras de Sucesso), ela conta da transformação que provocou no seu negócio, o turismo rural, o trabalho social, a participação numa entidade internacional de mulheres da cafeicultura e como se tornou uma referência no agronegócio mineiro.

Conte-nos um pouco de sua história pessoal…

Eu nasci na pequena cidade de Areado, nas montanhas cafeeiras do Sul de Minas. Meu pai era um empreendedor do ramo de combustíveis e posteriormente se tornou um cafeicultor, mas um apaixonado por servir e pelas pessoas. Ele sempre acreditou muito no poder de transformador da mulher e na sua independência. Sou a única filha mulher e tenho mais dois irmãos.

Você cresceu sonhando com que futuro?

Cresci nesse ambiente sempre sonhando em ter meu próprio negócio onde eu pudesse construir minhas próprias oportunidades e oferecer oportunidades para outras pessoas. Minha mãe, uma dona de casa com princípios e valores muito fortes, sempre nos criou no espírito colaborativo, ajudando uns aos outros, então cresci com a alma de vendedora e de empreendedora.

Como foram seus estudos?

Já pensava em meus próprios negócios quando decidi sobre meus estudos. Fui fazer a Faculdade de Farmácia na Universidade Federal de Alfenas (MG). Pensava: “um dia vou ter a minha própria farmácia”. Já na excursão de formatura da universidade conheci meu marido, um argentino que vinha pela primeira vez passear no Brasil, se encantou e já faz 30 anos que está aqui. Somos casados e temos dois filhos: a Gabriely (que está concluindo seus estudos em Odonto) e o Thiago (em Direito). Nos casamos e compramos a primeira farmácia em Rio Claro, interior de São Paulo.

Depois vocês se mudaram?

Ficamos pouco tempo e vimos uma oportunidade de crescimento muito grande em Bebedouro (SP), uma cidade encantadora que nos recebeu de braços abertos. Ali chegamos a ter quatro farmácias e me aprofundei nos estudos fazendo MBA em Gestão de Negócios. Na farmácia me encontrei: gostava muito das pessoas, de servir as pessoas, de atender. Nunca tive um escritório, meu lugar era o balcão porque quanto mais eu estava próxima do meu cliente mais eu sabia de suas necessidades e mais eu crescia. Nunca vendi medicamentos, vendi saúde, beleza, bem-estar, enfim, qualidade de vida.

E como foi o início de sua carreira profissional na área do meio rural? Como se deu essa mudança?

As grandes empresas do setor farmacêutico começaram a trazer dificuldades para os pequenos negócios. Então, há 12 anos adquirimos a “Fazenda Capoeira”, por influência do meu pai, mas era só o solo: não tinha um pé de café plantado, não tinha nada. Demos início à formação da fazenda, mesmo sem conhecer absolutamente nada de café, e permaneci paralelamente com as farmácias, setor que deixei em definitivo há seis anos. Aí me mudei para a fazenda para me dedicar exclusivamente ao café.

Como foi essa mudança de vida e de negócio para você?

Quando cheguei eu não conhecia e não sabia o que era um bom café. Aí fui me capacitar e conhecer o meu negócio. Porque ser apaixonada é positivo, mas conhecer faz toda a diferença. Eu assistia a todas as palestras que tratavam de café e fui aprender. Fiz uma pós-graduação de “Gestão em Cafeicultura” e busquei um caminho do diferencial, queria fazer um café melhor, queria ser especial para pessoas especiais, que reconhecessem o valor desse café e conhecessem a história dos envolvidos por trás desse café. Fui entender como eram os processos de qualidade do café e vi que estavam centrados em pós-colheita, que era muito importante reproduzir em terreiro as condições, o sabor e o encanto que vinham da árvore.

Qual foi sua atitude?

Vi que era um trabalho difícil, árduo, sob o sol e troquei o salto pela bota para ir para o terreiro para servir de exemplo e envolver as pessoas. Eu liderava pelo exemplo. Às vezes era necessário rodar os cafés 15 vezes por dia, dobrá-los na hora certa, não deixar mais tomar sereno, cobri-los para não tomar chuva. Era uma dificuldade porque só havia homens e eles não acreditavam nos meus processos, mas não bati de frente porque não queria o lugar deles, queria o meu espaço. Fui construindo argumentos com o que eu aprendia, com resultados, exemplos. Quando começaram a sair os primeiros resultados, as primeiras amostras, as pessoas ficavam encantadas com isso. Acredito muito nessa mudança de trazer uma mulher para os negócios do café, melhora muito porque mulher, café e qualidade são coisas muito próximas, porque usamos valores que são nossos, como capricho, amor, paixão, limpeza. E isso é fundamental na produção de um café de qualidade. Essa foi uma mudança muito grande que teve aqui com a minha chegada.

Que outras transformações você promoveu?

Quando você trabalha com varejo todos os dias você manipula vendas, compras e diariamente tem fluxo de caixa. Quando cheguei na fazenda não tinha isso porque o café só dá uma vez por ano, a renda é uma vez no ano, então é mudança de vida e comportamentos. Então comecei a pensar em processos que gerassem renda dentro da fazenda e que não dependessem só do grão. Vi que as pessoas estavam gostando muito de vir à fazenda e eu vi nisso uma oportunidade de negócio muito grande. Se as pessoas gostam de visitar a fazenda, ver como se constrói um café de qualidade, conhecer do grão à xícara e saborear o café ao lado de lindas paisagens, abri uma cafeteria que é o “Café da Roça”. Aí desenvolvi um projeto social com as mulheres da minha comunidade, porque elas faziam coisas muito bem feitas, mas não havia quem comprasse. Eu as levei para capacitação no Senac e compro tudo o que é produzido por elas e trago para ser vendido nessa cafeteria. Consigo assim melhorar a minha vida e a vida de outras mulheres.

Conte como se conectou a mulheres cafeicultoras de outros países…

Em 2011 ouvi falar que tinha uma senhora no Brasil trazendo conceitos da IWCA, que é uma aliança internacional de mulheres do café. Procurei e me encontrei com essa mulher, a Josiane: fiz uma festa aqui para recebê-la com 100 pessoas para que ela pudesse falar para nós brasileiras o que seria essa aliança internacional. Eu me apaixonei pelos conceitos da IWCA porque é fantástica já que conecta mulheres do grão à xícara, unindo as pontas da cadeia, mulheres produtoras com mulheres consumidoras e esse foi o meu grande insight na cafeicultura. Foi quando descobri que eu poderia melhorar a minha vida e de outras mulheres e isso foi um sentimento muito grande de empoderamento para mim. Vi que ali eu estaria fazendo uma história verdadeira no café. A partir daí passei a trabalhar fortemente com o intuito de empoderar a mim e a outras mulheres.

Que outras novidades você agregou?

Comecei a desenvolver várias atividades dentro da fazenda, além do social “Café da Roça”, como a “Rota do Turismo Rural” onde recebo compradores e visitantes para que tenham oportunidade de conhecer os arranjos produtivos que são muito eficientes aqui pois acreditamos fortemente na sustentabilidade que está em nosso DNA que conseguimos através dos processos de certificação. Investi muito também nos processos de pós-colheita porque digo para os nossos colaboradores: todo nosso amor e dedicação para produzir um café de qualidade vão estar expressos na xícara dos nossos consumidores. Aqui se produzia um café normal, um café commoditie; com a minha vinda e ajuda do meu marido produzimos cafés de altíssima qualidade e exportamos para quatro países, sendo uma mudança de patamar muito grande. Tudo isso gerou autoconfiança, melhorou a rentabilidade do negócio, deu visibilidade a meu trabalho e de outras mulheres.

Você faz questão de compartilhar seu conhecimento, certo?

Sim. Conhecimento que não se compartilha não é conhecimento. Todos os anos (já é o quarto ano) em novembro eu promovo aqui na fazenda o Encontro da Mulher do Café para que compartilhemos experiências, histórias de vida e possamos aprender mais. Trazemos importantes palestrantes para que tragam conhecimento para essas mulheres, mostrando um novo mercado de café. Melhoramos ainda nossa base de relacionamento, então invisto muito nesse conhecimento compartilhado.

Como vê o produto de vocês na atualidade?

Me orgulho muito de produzirmos esse café de muito boa qualidade. Hoje temos o café torrado e moído e agora vamos lançar os cafés em cápsula. Nosso café torrado e moído foi aprovado num projeto APECS-Brasil e no Design Export para que seja exportado diretamente para os mercados consumidores torrados e moídos. Então, através do portal Mulheres Exportadoras foi esse projeto que deixou as embalagens do café muito lindas por traduzirem todas as nossas conquistas no segmento. Não somos uma marca velha, somos uma marca jovem e inovadora, que acreditamos muito no saber fazer das pessoas. Transmitimos para nossas embalagens o jeito artesanal que temos de produzir cafés. Acredito que café é vida, tem o dom de aproximar pessoas, traz base porque envolvemos as pessoas que estão conosco.

Como é seu dia a dia e sua atuação no negócio de vocês? Você participa de todas as decisões?

Passo 365 dias dentro do meu negócio. Minha fazenda é minha empresa e aqui tem uma orientação para resultados. Durante todo o ano estou dentro da fazenda tomando todas as decisões, colhendo dados e informações para que o negócio seja uma empresa de resultados.

Durante a safra o trabalho é dobrado? Como é conciliar a vida de gestora, esposa e mãe?

Durante a safra é maior tempo que dedico, aí 24 horas por dia porque literalmente não saio para nada. Venho de mudança para a fazenda no primeiro dia que dá início à safra e saio no último dia, quando se coloca o último grão de café no saco. Acredito que quanto mais próximo eu estiver, mais eu consigo entender os processos de qualidade. Minha dedicação é total, mas além de empresária sou mãe, sou esposa, sou filha, então tenho que conciliar todos esses cuidados: com minha mãe, meus negócios, filhos, minha casa, meu marido, continuar meus estudos constantemente, sendo uma parte muito desafiadora porque conciliar tudo com o negócio, ainda mais na safra que a demanda é muito grande, mas é o equilíbrio porque a época que mais nos dedicamos é quando colhemos o café.

Qual o foco do empreendimento de vocês?

É a produção dos cafés especiais e valorização de nossas origens e nossas pessoas. Não vendemos grãos de café, vendemos nossa história, nossa cadeira de relacionamentos.

Como é sua participação na IWCA?

Hoje sou diretora de marketing e tenho orgulho de ter sido uma das fundadoras da IWCA no Brasil.

E quanto ao prêmio do Sebrae? Fale um pouco sobre ele e a emoção que sentiu…

Tenho um orgulho muito grande por ter vencido o prêmio “Mulher de Negócios Sebrae Minas Gerais”. É um prêmio que vai promover muito minha vida e de outras mulheres a partir dos cafés produzidos por mim. Esse prêmio valoriza a história de mulheres que tornaram seus sonhos realidade e que são capazes de inspirar outras mulheres e dizer: “você também pode, todas nós podemos”!

Quais são as maiores dificuldades e, por outro lado, os pontos mais positivos do seu trabalho?

Eu amo o que faço. Sou completamente apaixonada pelo café e pelas pessoas que trabalham para produzir cada grão. Minhas dificuldades são de um negócio normal, de uma empresa normal: desafios, pessoas, equilíbrio, gastos, custos, esses são meus maiores desafios.

O que mudou na cafeicultura desde quando você começou?

Era enfrentar um trabalho árduo que eu não estava acostumada porque eu escolhi liderar pelo exemplo para que as pessoas soubessem a importância de se produzir um café especial.

Você é feliz no que faz e o que mais te motiva a continuar?

Eu sou muito feliz no que faço. O que me move e inspira é saber que posso melhorar a minha vida e de outras mulheres, é saber que sou capaz de transformar um negócio num negócio grande, é ter um sonho grande na cafeicultura, é saber que faço parte de uma cadeia produtiva que faz parte da construção de um Brasil melhor.

Que mensagem deixaria para as mulheres que sonham em trabalhar no segmento?

A mensagem que deixo para essas cafeicultoras é que vivamos uma vida que vale a pena ser vivida, contar uma história que vale a pena ser contada. Devemos deixar um legado para que as pessoas sonhem em trabalhar conosco, sonhem estar a nosso lado e que nós empreendedores sejamos os motores de transformação e crescimento desse país. Somos o caminho do bem, somos o Brasil que dá certo, não transgredimos as regras do jogo, empresários que não deveriam servir de exemplo para nós não nos inspiram. Então, nós iremos transformar. Eu sozinha faço muito pouco, mas juntos nós teremos um outro país e eu tenho muito orgulho de fazer parte de uma cadeia produtiva que contribui com o crescimento do Brasil. Nós empreendedores de sucesso temos que ser os multiplicadores de sucesso, sendo capazes de transformar nosso país num país melhor. A mensagem para as mulheres é que nosso papel é muito importante, somos capazes de transformar. Lembrando que estamos trazendo os filhos de volta para o campo com a sucessão, então somos inspiradoras e multiplicadoras de bons exemplos.

(Produção: André Luiz Costa/Jornalista)

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Sobre o Autor

Vanessa Sabioni

Graduada em Egenharia Agrônoma e Mestre em Fitopatologia pela Universidade Federal de Viçosa – MG. Atualmente cursa o MBA em Marketing ministrado pela Esalq-USP. CEO e Fundadora da Rede Digital AgroMulher.

1 comentário

  1. Olá, ótima entrevista! Só corrigi dois errinhos:
    – Você escreveu Commoditie, mas no singular seria commodity
    – Ao invés de APECs, o certo é APEX (Agência de Promoção à Exportação)
    Abraço

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