quarta-feira, novembro 14

Geotecnologias aplicadas à gestão sustentável das propriedades rurais – parte 1

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Para nós, humanos, a estruturação da paisagem é um procedimento essencial para a sua caracterização. Detectamos as paisagens sob forma de arranjos espaciais com determinadas feições. Usamos expressões como “a paisagem está fortemente compartimentada”, “paisagem aberta de colinas” ou, ainda, “paisagem agrária limpa” para expressar o nível de diferentes estruturações em linguagem popular. A observação do desenvolvimento de paisagens no tempo é um importante pré-requisito para entender os processos que estão ocorrendo e para o prognóstico de tendências futuras. Para muitas tarefas dos órgãos de planejamento e do meio ambiente, a documentação da condição atual e a detecção de mudanças são de significado central. Em especial a proteção à natureza, por estar relacionada ao espaço, tem uma grande necessidade de dados atualizados e espaciais (LANG; BLASCHKE, 2009, p. 13 e 344).

O meio rural brasileiro vem explorando novas atividades econômicas, sendo assim necessária uma gestão ambiental rural capaz de avaliar os impactos ambientais que essas novas atividades podem causar e também criar novas políticas públicas e estratégias para que essas atividades sejam desenvolvidas de forma sustentável (RODRIGUES et al., 2005).

Nos últimos anos, muito se aprendeu sobre os ciclos produtivos dos diferentes produtos e as técnicas mais adequadas para se produzir de modo sustentável. Fazer com que os produtores pratiquem essas “boas técnicas” é outra questão.

imagem 1 – figura 1 Modelo de interação mostrando a relação entre as ciências de informação geográfica (sensoriamento remoto, cartografia, sistemas de informações geográficas e levantamento) à medida que elas se relacionam com a matemática e a lógica, e com as ciências físicas, biológicas e sociais. Fonte: Jensen (2009)

Ao longo da história, a observação e a representação da superfície terrestre têm sido tema fundamental para subsidiar a organização e o desenvolvimento das sociedades, por intermédio do registro gráfico das informações e dados espaciais. Até o início da década de 1970, as informações relativas à superfície terrestre eram exclusivamente obtidas por intermédio de fotografias aéreas verticais, o que é chamado de Aerofotogrametria. De excelente qualidade, tais fotografias, hoje digitais, permitem a produção de mapas em várias escalas e com resoluções ainda não alcançadas pelas imagens de satélite. Por esta razão são ainda as utilizadas em projetos executivos de grandes obras de engenharia e em aplicações urbanas. Como o custo unitário é elevado, não são produzidas de modo contínuo e sistemático, de modo que não são apropriadas para o monitoramento ambiental.

Modernamente, a área que agrega a utilização conjunta de várias disciplinas voltadas para a aquisição, análise e representação dos fenômenos geográficos é chamada de Geotecnologias. De fato, Rosa (2005) define Geotecnologias como um conjunto de tecnologias baseadas na Cartografia Digital, Sensoriamento Remoto, Sistemas de Informações Geográficas (SIG) e Sistemas de Posicionamento Global (GPS), em ambiente computacional, com a finalidade de processar as informações espaciais.

As vantagens dessa utilização conjunta são:

  1. a) Rapidez na aquisição de imagens de satélite atualizadas e nas escalas desejadas;
  2. b) Custos de aquisição relativamente baixos;
  3. c) Rapidez no processamento e na interpretação destas imagens;
  4. d) Confiabilidade nos sistemas de processamento de dados espaciais (SIGs), proporcionando resultados de excelente qualidade;
  5. e) Possibilidade de se produzirem informações para várias finalidades;
  6. f) Execução de análise espacial, diagnóstico ambiental, monitoramento ambiental e prognósticos.

Quando há uma intervenção brusca e significativa, o ambiente, sem condições de se adaptar, fica submetido a processos degenerativos quase sempre de difícil solução. É o caso do desmatamento, com a repentina remoção da vegetação natural que protege os solos. De imediato, toda matéria orgânica superficial começa a ser oxidada (queimada) pela ação da luz solar. A matéria orgânica é responsável não só pela fertilidade inicial do solo, mas também pela agregação das partículas que constituem o solo nas camadas superficiais. No caso da oxidação da matéria orgânica, não mais de 3 anos são suficientes para a quase total eliminação da mesma. Com a perda de agregação, o solo superficial começa a sofrer a ação de diferentes agentes, como a água da chuva (erosão hídrica) e o vento (erosão eólica).

imagem 2 – figura 2
– Representação esquemática de uma bacia hidrográfica e suas interrelações Fonte: Adaptado de Dobson & Beck (1999)

Ainda não há no Brasil, um consenso quando se trata do planejamento ambiental. Até a década de 1970 os planejamentos eram realizados quase que exclusivamente respeitando-se limites administrativos legais em uma região, como são os casos dos planejamentos municipais (Plano Diretor Municipal), estaduais e nacionais. A partir de então, e a menos que, por força de lei, a unidade de planejamento seja um limite administrativo, a bacia hidrográfica é considerada a unidade territorial ideal para aplicação de ações ligadas ao planejamento ambiental. A razão para a adoção da bacia hidrográfica como unidade estratégica de planejamento é que a mesma representa a expressão das inter-relações entre todos os elementos que constituem o meio físico e biológico da área da bacia, delimitada pelos divisores de água.

A abordagem sistêmica considera a paisagem como resultante da combinação dinâmica dos elementos físicos, biológicos e antrópicos, que interagem entre si. Tal abordagem é adequada ao estudo do zoneamento e posterior planejamento ambiental, visto que estes também são resultantes da Análise Ambiental Integrada (AAI) dos elementos supracitados. Portanto, da AAI chega-se à compreensão das partes menores de uma porção da paisagem e suas inter-relações, permitindo identificar os diferentes subsistemas (e seus componentes) envolvidos, sendo os mais comuns: econômico, político, social, comportamental, físico-territorial, físico – biótico (ANDRADE et al., 2000).

A produção e a reprodução do espaço envolvem um conjunto de processos ainda mais articulados. A necessidade de intervir nesse espaço, buscando uma melhor compreensão do espaço geográfico e das relações da sociedade com o ambiente onde vive, torna a procura por novos instrumentos conceituais e técnicos uma constante, em todas as áreas de conhecimento. O avanço tecnológico que tem causado maior influência na pesquisa geográfica está relacionado ao advento das geotecnologias, com especial destaque para os Sistemas de Informações Geográficas (SIGs) e os avanços na área de Sensoriamento Remoto. Neste sentido, é necessário que os profissionais busquem conhecer em detalhe esta tecnologia, avaliando os aspectos práticos e teóricos de sua utilização (FITZ, 2008, p. 5). Umas das características marcantes envolvendo geotecnologias é a possibilidade de aplicação em múltiplos campos da ciência (Figura 1), facilitando sua integração e a operacionalização de estudos e investigações científicas (GEBLER; PALHARES, 2007, p. 35).

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Sobre o Autor

Marianna Villaça Batista

Engenheira Agrônoma formada pela Universidade Federal de Viçosa – UFV, possui MBA Executivo em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas – FGV. Seu portfólio atualmente é na área de sustentabilidade para o meio rural, atuando como agente de assistência técnica e gerencial do Projeto Rural Sustentável, uma parceria de cooperação técnica que tem como o executor e gestor financeiro o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Possui uma experiência agrícola consolidada na área operacional/administrativa, presta consultoria e ministra cursos e palestras para o empresariamento do profissional do campo. É Professora Universitária do Curso de Agronomia da Faculdade Presidente Antônio Carlos de Teófilo Otoni/MG – UNIPAC TO.

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