ENTREVISTA ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO: Cida Muniz, uberlandense de sucesso em SP — gerente de publicidade da editora Centaurus, que edita as revistas A Granja, A Granja Kids e AG

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +

No aniversário de três anos do BLOG MAS – MULHERES AGRICULTORAS DE SUCESSO uma entrevista especial com Cida Muniz: uma uberlandense de destaque, que há 24 anos trabalha em São Paulo na publicidade voltada para o meio rural. Ela fala sobre seu trabalho, sobre uma vanguardista revista em quadrinhos voltada para crianças e traz informações impressionantes de como as mulheres estão ocupando papel cada vez mais relevante no agro.

Conte-nos um pouco de sua história…

Sou de Uberlândia (MG), mas moro e trabalho em São Paulo já há 24 anos, porém, trabalhando no agro completou em junho deste ano 10 anos. Trabalho basicamente na área da publicidade, mas filha de pequeno pecuarista que sou, aprendi com meu pai muita coisa do agronegócio. Meu pai foi um precursor do setor, porque ele tinha uma empresa de fazer desmatamento de áreas que estavam sendo ocupados por produtores rurais no centro-oeste. Existia o programa do governo “Integrar para não entregar” e o produtor rural tinha uma meta de desmatamento, caso contrário o governo poderia retomar as terras. Vejo como uma situação curiosa porque hoje o produtor é “demonizado” porque desmatou, mas o Governo Federal não assume sua “mea culpa” porque autorizou o desmatamento sem dar a assistência técnica. Porém, se não fosse meu pai desmatar o centro-oeste aquela região não teria a produtividade que tem atualmente.

Qual seu trabalho atualmente dentro do âmbito do agronegócio?

Sou gerente comercial na Editora Centaurus, mas comecei a atividade dentro do agronegócio em São Paulo, trabalhando para o Canal do Boi, implantando o escritório comercial do canal em SP. A partir de abril de 2011, fui trabalhar na Revista A Granja (que é voltada para a agricultura, já que é gaúcha e para o gaúcho “granja” quer dizer “fazenda”) e em maio do ano passado assumi também a comercialização da Revista AG, que é voltada para a pecuária. A revista hoje tem dimensão, circulação e conteúdo nacionais.

Como vê a importância do agro para o País?

Tenho verdadeira paixão pela agropecuária e admiração por quem trabalha na terra. Não gosto quando vejo as pessoas demonizando o setor agropecuário sem conhecimento. É preciso separar o joio do trigo, pois sabemos que existem produtores hoje que não atuam de forma correta, mas um número muito pequeno e por falta de conhecimento mesmo.

Como você avalia o avanço do agronegócio brasileiro? Me parece ser uma bandeira sua…

Hoje no campo ignorância não combina com desenvolvimento. O campo hoje está muito mais tecnológico do que a cidade. Enquanto a Dilma estava andando de carro sem motorista do Google, já tínhamos trator sem piloto há mais tempo. O drone chegou no campo primeiro que na cidade e outras tecnologias, como o “blockchain” (também conhecido como “o protocolo da confiança”) e o “IoT” (Internet das Coisas, do inglês, Internet of Things) começaram mais fortemente no campo. O campo não é como antigamente, é preciso estudar e o setor público também precisa ajudar as pequenas propriedades rurais a serem autossuficientes, a gerarem renda e qualidade de vida. Quem é produtor rural não tem apenas responsabilidade ambiental, mas também responsabilidade socioeconômico. Defendo essas bandeiras com todo orgulho do mundo. Não tenho propriedade rural, tenho uma casa no meio urbano, não sei cultivar nem suculentas ou uma cebolinha, mas por isso mesmo que tenho tanta admiração por quem faz a terra gerar alimento.

A Editora Centaurus tem uma revista infantil, em quadrinhos, mas voltada para o agro. Como é esse projeto tão interessante?

O projeto de “A Granja Kids” foi idealizado no final de 2007, mas com a crise econômica mundial de 2008 optamos por guardá-lo e em dezembro de 2012 tivemos um contato com a John Deere, através de seu presidente Paulo Herrmann, nos convocou a ser a editora a lançar uma revista infantil para as crianças que são o futuro do agro. O foco era atingir filhos de produtores rurais no intuito de levar para essas crianças informações lúdicas, mas que pudessem fazer com que as crianças se interessassem mais e passassem a se interessar pelas atividades rurais da família em função de que os livros didáticos e a própria mídia nacional trabalham de forma bastante negativa quanto a atividade agropecuária e quando se tem algo de muito bom a notícia é mais discreta. O projeto foi idealizado pelo fundador da Centaurus, Sr. Hugo Hoffmann, que faleceu em abril de 2010, e essa conversa foi entre Paulo Herrmann e diretoria da editora onde viu-se a oportunidade de dar start a um projeto que já estava praticamente pronto, tanto que a primeira revistinha não teve alteração na história — era a mesma história e foi lançada assim — agregando outros patrocinadores logo na sequência.

Vemos que muitas vezes a mídia aborda questões negativas do agro em grandes manchetes e o lado positivo bem discretamente. Essa revista também tem esse papel?

O projeto visa levar para a criança do agro informações sobre as diversas atividades agropecuárias e aquilo que as envolve. Já falamos de proteção de meio ambiente, com a preservação da fauna; a importância de se manter distância com relação a embalagens e veículos que transportam produtos como defensivos, que a criança não pode se aproximar; que é importante o uso dos equipamentos de proteção individual; enfim, a revista procura mudar o comportamento do adulto através da criança, porque a criança observa, entende e quando assimila tenta passar a mensagem e quando na escola tiver alguma questão em que o agro seja colocado de forma inadequada, a criança possa ter argumentos a respeito daquilo para poder criar um contraponto porque hoje a criança só absorve as informações, ela não recebe de nenhuma fonte confiável informações sérias e importantes sobre o que acontece no agro.

CLIQUE AQUI, CONHEÇA E LEIA A REVISTA ‘A GRANJA KIDS’ 

São muitas informações negativas sobre o agronegócio…

Sim, a criança só recebe uma carga negativa — todos os livros didáticos sempre colocam que o desmatamento é o grande responsável pela mudança do clima; o problema da camada de ozônio, o gás carbônico, é em função dos gases emitidos pelos animais que estão confinados no pasto; são coisas dessa natureza que a criança começa a ter uma outra percepção com a revista em quadrinhos, um outro olhar e a partir daí ela consegue assimilar aquilo que é verdadeiro e o que é negativo não coincide com as atividades que a família desenvolve na fazenda.

Quanto ao papel da mulher no agronegócio brasileiro, como você avalia?

Hoje, 59% das mulheres são proprietárias ou sócias de propriedades rurais; 10% delas são gerentes, administradoras ou coordenadoras (segundo dados da ABAG — Associação Brasileira do Agronegócio). É notório que no Brasil, como em outras partes do mundo, existem hoje mais mulheres do que homens e consequentemente, não existem homens suficientes para assumirem as atividades agropecuárias, então a mulher está ganhando esse espaço. Mas, a mulher está ganhando esse espaço diferente do homem, porque ela está buscando mais especialização, mais informação, mais formação.

Dê um exemplo para os leitores.

Houve um debate na arena do Canal Rural durante a Expointer e eu presenciei — inclusive as perguntas que foram para esse debate fui eu que enviei — todas as mulheres que lá estavam tiveram uma formação muito superior a simplesmente ser um profissional técnico ou um agrônomo, veterinário ou zootecnista; elas foram além e, por essa vantagem, conseguiram se sobressair. Muitas delas não colocam a questão do gênero, muitas colocam que a mulher ainda tem uma remuneração menor até porque em certas situações ela também tem uma dedicação menor porque ela tem outras atividades — a mulher tem jornada dupla e tripla, isso não tem como mudar; o que está mudando é o papel do homem na relação familiar, ele está passando a contribuir mais. As moças hoje estão procurando rapazes que saibam cozinhar (risos), até porque muitas não sabem. Estão procurando companheiros que possam agregar com elas para que juntos possam construir alguma coisa.

Que diferenciais a mulher tem no agro?

O papel da mulher é fundamental porque ela tem um olhar crítico e uma percepção diferentes. Como a mulher tem uma capacidade notória de desenvolver muitas atividades ao mesmo tempo e todas elas com perfeição, a mulher — não é que ela seja melhor do que o homem — ela tem uma formação, uma constituição física e de personalidade diferente do homem que agrega vantagens em muitos aspectos. E no agro, é preciso ser multidisciplinar: você é gestor; não administra apenas custos, você lida com gente e para lidar com gente tem que ter tato, talento e capacidade; você tem que lidar com organização, precisa saber aglutinar talentos e fazer com que os processos ocorram.

Qual a contribuição da mulher nessa atividade?

Acredito que a contribuição da mulher para o agro é muito positiva. Existem casos mais simples, por exemplo, “operadoras de máquinas colheitadeiras de cana”: hoje praticamente não existe mais a colheita manual de cana, até por uma questão de legislação, e as mulheres que tinham um pouco mais de conhecimento, formação e buscaram se aperfeiçoar fazendo um curso de operação de máquina para colher cana ou até outras máquinas, essas mulheres se sobressaíram, têm um bom lugar no mercado porque faltam menos, são mais responsáveis, não consomem bebida, mantêm a máquina com a manutenção em dia e limpa, diferentemente de homens que sempre foram dominantes na operação de máquinas. Hoje você tem mulher que transporta soja, que faz a colheita, que negocia, que planta, e tem mulher que auxilia tecnicamente no cultivo de lavouras de soja e isso tende a crescer.

Mas, ainda existem problemas…

Sim. Por exemplo, a mulher que precisa visitar uma fazenda, fisiologicamente ela depende de utilizar o banheiro mais do que os homens e as fazendas hoje não têm banheiro que a mulher possa utilizar, a não ser que ela adentre a casa do fazendeiro. E muitas das vezes ela se sente constrangida: ou porque ela sente que está invadindo o espaço do cliente, ou a esposa do cliente não se sente confortável, mas ninguém coloca um banheiro do lado de fora para favorecer a mulher. É uma questão tola, mas é debatida em certos grupos. Mas, as mulheres estão cumprindo muito bem o seu papel e tendem a cumprir cada vez mais. A mulher se dedica, ela é competitiva, mais talvez que os homens e quer provar o seu valor. Acho que vai atingir sim os seus objetivos, mas não vai tomar o espaço do homem, vai ocupar o espaço que o homem não está ocupando. Se ele não está se “tecnificando”, ela vai ser mais técnica do que ele, então a vaga vai ser dela.

Entrevista concedida ao jornalista André Luiz Costa — especial para o BLOG MAS

Compartilhar.

Sobre o Autor

Andréa Oliveira

Advogada, atuando em diversas áreas do Direito, com foco em Direito do Agronegócio.

Deixe Seu Comentário