segunda-feira, dezembro 17

Em Homenagem aos Panhadores de Café: uma Coleção de Moda

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Tássia Murad Abreu, estilista e artista visual, nasceu em Três Pontas MG. Ela é criadora da coleção “Muda de café, moda de café, muda de roupa”, inspirada nos panhadores e na própria cultura do café. Recentemente participou do I Encontro das Agromulheres de Minas, durante a Expocafé, quando falou sobre esta linda coleção e apresentou uma modelo vestindo algumas peças. Convidamos Tássia para uma entrevista com o intuito de conhecer mais sobre esta coleção, e o resultado é o bate-papo incrível que segue abaixo. Mostra a sensibilidade de uma artista ao interpretar o simples e tão amado “universo agro”.

Mírian Xavier: Qual a sua relação com o campo e com a cultura do café?

Tássia Murad: Cresci muito ligada à cultura do café. Meus pais sempre tiveram roça, e brincar na lavoura, no terreiro, conhecer os filhos do camarada, assistir aos “panhadores” e ver o pôr do sol em meio as ruas dos cafeeiros nas montanhas são marcas fortes da minha infância e adolescência. Aliás, a própria paisagem ao redor de Três Pontas, minha cidade natal, não deixa eu esquecer da cultura a qual pertenço, toda vez que chego ou saio de viagem. Essas viagens marcadas pela paisagem dos morros de café são muito frequentes e caracterizam bem a minha identidade.

Mírian Xavier: “Muda de café, moda de café, muda de roupa”. Qual é a essência desta coleção?

Tássia Murad: “O real como ideal”, é a sedução da coleção.

Da menor e mais simples ideia surgiu um universo de questões e encantos do café relativos à moda. Pude perceber, desde a história do café até a conclusão da coleção, que ambas vinham caminhando juntas numa grande harmonia. Para mim, os “panhadores” de café são a expressão de criatividade e de uma personalidade simples e, ao mesmo tempo, muito forte, com os quais podemos aprender muitas coisas e nos inspirar, tomando-os até como exemplo de vida. No mundo tecnológico de hoje, precisamos valorizar o ser humano, o trabalho manual, o contato com a natureza. Por isso, esta coleção vem nos aproximar deste mundo real, e distante ou desconhecido para muitos, porém tão presente na vida cotidiana de cada um com o “cafezinho”. O meu objetivo foi mudar o sentido do café, criando a partir dele uma coleção para tocar, sentir e usar.

Mírian Xavier: Conte-nos brevemente sobre as características das roupas dos trabalhadores, que inspiraram a coleção.

Tássia Murad: O que mais me inspirou foi como os “panhadores” de café se vestem com liberdade e criatividade. Os aspectos mais notados em suas vestimentas são aspectos de proteção, praticidade, funcionalidade e liberdade. E isso é muito interessante para mim enquanto profissional que estuda e cria vestimentas. A realidade social destes trabalhadores está escancarada em suas roupas e isso é muito bonito, pois traz verdade. É a roupa usada em sua mais pura finalidade, de expressão e identidade. Muito mais que usadas para pertencer a um grupo, como faz o sistema moda desde a ascensão da burocracia até a atualidade, são peças de roupas formuladas para o trabalho, para sua realidade e identidade. O aspecto do trabalho manual se estende do trabalho deles para a construção das suas roupas. Alinhavos e pespontos. A questão da roupa aproveitada, grande ou pequena, rasgada, retalhada, suja e esgarçada. A camisa de futebol, é um item de ascento na coleção por trazer essa característica de aproveitamento e ao mesmo tempo pertencimento às margens. A tecnologia do calçado é pensado para o conceito “sapato de pobre não tem número”. O desejo é que as pessoas sintam beleza de ser simples, que estes “panhadores” mostram com tanta sofisticação, entre sutilezas e profundidades.

Desculpe não ser breve para falar destas características, mas é que são muito encantadoras para mim.

Gostaria de acrescentar também a inspiração que tive através das paisagens que estes trabalhadores da cultura do café desenham no ambiente.

Inspiradas por essas paisagens foram criadas maquetes têxteis com café cru e torrado, maquetes de tingimento e maquetes de construção. Aviamentos feitos com a sobra da palha de café. A técnica de moulage é bastante importante na coleção, pois as roupas têm muita construção, volumes e detalhes. Os volumes enfatizados e localizados nas peças da coleção são referenciados à Portinari, que é outro artista que se encantou e retratou o povo dessa cultura.

Mírian Xavier: Tássia, você tem alguma peça favorita na coleção? Qual a peça e qual o motivo dela ser especial para você?

Tássia Murad: Tenho sim. Acredito que o boné-lenço traz uma imagem muito forte e amarra, literalmente, metaforicamente, e estéticamente a coleção. O cabelo quase não aparece, pois todos os looks são propostos com estes bonés-lenços amarrados na cabeça. Eles retratam uma das características mais legais da produção de roupa dos “panhadores” para trabalhar, que é a amarração de lenços por cima do boné, com o objetivo de proteção. Eu acho lindo! E foi uma peça muito aclamada no desfile da coleção. Além de que, o boné-lenço estampa em sua aba um trabalho artístico e espontâneo, feito com a bebida do café em copos americanos, muito interessante, que aconteceu nesse meio tempo de criação, do qual adoro relembrar! Esta peça traz uma liberdade minha para coleção, uma visão mais colorida e tecnológica, que a deixa mais contemporânea, sem tirar dela toda a elegância característica da amarração de lenços na cabeça.

Mírian Xavier: Você pode compartilhar com os leitores do Portal Agromulher, um trecho ou um resumo da Dedicatória da coleção?

Tássia Murad: “Dedico este trabalho aos “panhadores” de café que conheci; àqueles que desabafaram comigo suas lutas; àqueles que me deram tanta atenção, explicação, daquele jeito simples de falar, de ser; àquele que com poucas palavras me cativou “Joaquim da Silva del Cario”; àqueles que com apenas um olhar ou um sorriso me emocionaram, àquele que largou o ônibus e foi embora a pé, de vergonha de mim por eu estar fotografando; àquela que me fez ver uma imagem tão bonita porém tão sofredora ao mesmo tempo ao “banar” o café; àqueles que me perguntavam se iam sair no jornal; àquelas que riam de vergonha de como estavam vestidas e de nervoso de me ver fotografando; àquela que falou “nóis vai virá moda”; àquele que depositou esperança em mim, para resolver o problema de machucar as mãos, e falou “quando cê abri a loja, vê umas lá pa nóis”; àquele que fez pose para sair na foto; àquele senhor que me contou a sua vida inteira em cinco minutos; àquela que me pediu para não tirar a foto; àqueles que me estranharam mas aos poucos foram se abrindo comigo; e ao Tarcísio, o “camarada”(que cuida) lá da minha roca, que sempre foi muito atencioso e carinhoso com a gente, e que me deu a primeira inspiração de como um trabalhador se veste com liberdade. ” 

Agradecemos à Tássia pela entrevista. E pelo lindo trabalho, em homenagem aos panhadores e à cultura do café.

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Sobre o Autor

Mírian Xavier

Engenheira Agrônoma formada na Universidade Federal de Viçosa e pós graduada em Gestão da Segurança dos Alimentos.

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