Elas podem por que acreditam que podem

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Foi uma das conversas mais importantes que eu tive. Um pouco antes de me formar Zootecnista, fui consultar um professor sobre o processo de mestrado – assim garantiria o título no CV até encontrar meu caminho. Ele me disse: “Andrea, você é do mundo! Você é da ação! Você vai morrer de tédio se ficar restrita a um laboratório, a uma tese, a um escritório! Adoraria tê-la como orientada mas não posso fazer isso com você”…

E não é que ele estava certo? Minha vida seria mais fácil se todos os homens que cruzei pensassem assim.

Sete anos se passaram e, após trabalhar em uma multinacional de um ramo predominantemente masculino, gerenciar uma equipe composta só por homens, morar em uma cidade extremamente machista dos EUA, não podia imaginar o quanto a vida tinha me fortalecido. Estava noiva, organizando o nascimento da minha empresa e morava há poucos meses em Belém-PA, por conta do trabalho dele. Minha rotina de compartilhar informação sobre a cadeia da carne estava se transformando em uma Startup e não demorou muito para a “brincadeirinha” de rede social começar a virar reuniões, projetos, parcerias, eventos…

Meus horários, que antes se adaptavam à rotina dele, começaram a ocupar os finais de semana, feriados, às vezes à noite… 

Duas semanas antes do primeiro curso presencial do Território da Carne, tive a certeza de que minha dedicação profissional seria um problema. O chefe do meu noivo resolveu conceder férias atrasadas a ele, convidando-o a se ausentar por duas semanas. “Você não tem como trocar a data ou suspender o evento? Podemos ir à Miami.” ele perguntou. Eu fiquei perplexa. Senti que minhas vontades, meus projetos, minha vida não tinham relevância. “Ele não enxerga que do outro lado existe uma mulher, um trabalho, uma empresa, interesses e sonhos?” E a resposta é que muitas vezes não fazem por mal, mas eles nem notam que não nos notam… 

Fiquei triste, magoada… disse que não, óbvio! Que eu não iria viajar de férias com ele e só queria que estivesse aqui no dia do evento para me apoiar. Mas o incômodo por sua mulher ter optado pela vida profissional à pessoal naquela ocasião não conseguiu ser administrado. Ele decidiu sair de casa um dia antes do evento. 

Eu tinha duas opções: cancelar, queimar meu nome e o nome da minha empresa – que estava nascendo – ou fazer acontecer, independentemente dos acontecimentos.

Desistir estava fora de cogitação. Não contei a ninguém. Para efeitos gerais ele estava em uma viagem de trabalho. O evento aconteceu. Não conforme os planos. Mas ninguém sabia o planejado. Só eu. Os convidados amaram. Elogiaram. Mal sabiam o “bagaço” que eu estava por dentro. Mas eu fiz! Aprendi a me valorizar e valorizar ainda mais meu trabalho. 

Me senti livre. Precisava agora operacionalizar as coisas. Foi neste dia que eu percebi que tudo o que eu havia aprendido em 12 anos ainda não era o suficiente pra tocar minha empresa e que, se aquele era meu propósito maior, nada deveria me parar. Foi então que tomamos a difícil decisão de cada um seguir seu rumo e o meu seria literalmente cair na estrada – como aquele professor me disse lá atrás – e aprender ainda mais sobre a relação do homem com a carne no Brasil! 

Quando acreditamos com convicção que alguma coisa é verdade, é como se enviássemos um comando para o nosso cérebro de como representar o que está ocorrendo. Primeiro você crê, depois você vê! Eu sabia o que eu era capaz de fazer. Eu sabia que sair em expedição pelo país e pelo mundo iria me fazer alçar voos altos. Eu só precisaria que alguém acreditasse e topasse investir nisso comigo. 

Dois investidores anjo literalmente caíram do céu. Lá fui eu planejar a viagem e contar à família que sairia sozinha de carro, ao longo de 6889km em 13 estados e 28 cidades, pelas estradas do Brasil, nos próximos 64 dias.

Fazia duas semanas que a expedição havia começado, estava tudo correndo muito bem, até que chegou o dia em que eu conheci o Danilo… 

Danilo é um policial rodoviário. Daqueles que não entende e talvez nunca entenderá o papel da mulher na sociedade. Eu estava indo para Maragogi, numa estrada estreita e esburacada, em um trecho de ultrapassagem proibida, passava das cinco horas da tarde. Eu queria chegar no hotel antes de escurecer – um dos tratos que fiz comigo mesma quando resolvi fazer esta loucura era de nunca dirigir durante noite. Mas meus planos foram interrompidos quando Danilo resolveu que iria me parar numa blitz.

Estava tranquila, cantando, quando recebi o sinal e parei o carro. Abri o vidro, entreguei os documentos, conforme ele foi me pedindo. Danilo olhou, avaliou minuciosamente o carro pelo lado de fora, olhou através da minha janela para o banco de trás. Perguntou se eu estava sozinha, eu respondi que sim. Ele deu uma volta no carro, voltou na janela e disse: “vou precisar apreender seu veículo”. Eu, quase sem conseguir pronunciar uma palavra, perguntei o por quê. Ele retrucou: “você pode descer do carro por favor?” Eu, com medo, mas sabendo que o carro estava em ordem, desci. Ele perguntou: “você não tinha nenhum homem pra dirigir pra você? Por que está sozinha?”.

Eu respondi na mesma hora que era uma viagem a trabalho, planejada por meses, onde iria viajar por mais 50 dias e que não era meu objetivo ter ninguém dirigindo pra mim. E ainda completei: “eu posso tranquilamente assumir esta função”.

Ele, nitidamente mais incomodado após minha resposta, disse: “suas lanternas não são originais, foram trocadas e não consta no documento, por isso vou precisar apreender o veículo e o documento. Você terá que voltar para Pernambuco para regularizar isso lá”. Não satisfeito com o show de horrores, ainda completou: “talvez, por ser mulher, você não entenda muito disso, mas é assim que funciona”.

Eu, já vendo que o negócio estava indo para um lado perigoso, tornei a explicar que não era uma viagem com volta, eu estava descendo pra São Paulo e voltar para Pernambuco àquela altura poderia arruinar com todos os agendamentos das próximas semanas… e emendei, olhando calma, bem no fundo dos olhos dele: “Danilo, você sabe que eu não fiz nada, que se tem algo irregular com o carro, eu posso ser multada e assumir a irregularidade ou ainda parar em uma concessionária amanhã e regularizar o que for necessário para seguir, mas no fundo você sabe que eu não agi intencionalmente e só estou querendo concluir minha viagem, fazer minhas entrevistas e contar tudo isso em um livro incrível que está nos meus planos escrever…”

Senti que estas palavras mexeram com ele, foram internalizadas e aquele policial se calou por um momento. Foram os segundos mais longos da minha vida. Ele olhou para baixo, deu um suspiro, olhou para mim, entregou meu documento e falou: “vou te ajudar dessa vez, pode seguir viagem e coloca isso em um dos capítulos do seu livro…”.

O sentimento de alívio misturado com revolta pelo fato de ser considerada “frágil” ou incapaz não foi inédito na minha vida, mas neste caso, a sensação de impotência e medo falaram mais alto e eu saí agradecendo a Deus por não ter acontecido nada mais grave. 

Minha pergunta é, será que o Danilo não tem mãe, irmã, filha? Será que ele sabe o pânico que causou por usar do seu gênero para diminuir e do seu cargo pra intimidar uma mulher? Tenho certeza que não… Mais de um ano se passou e eu nunca mais consegui passar por uma base da polícia sem sentir minhas pernas tremerem e um frio na espinha…

E aí, mulheres do agro, como nos preparar para estas e outras tantas armadilhas que enfrentaremos lá fora?  

Crie crenças por meio do conhecimento. Uma experiência direta é uma forma de conhecimento. Outra é obtida por meio de leitura, filmes, vendo o mundo como é retratado por outros. Por isso estou compartilhando estas duas histórias com você. O conhecimento é uma das grandes maneiras de quebrar as algemas de um ambiente limitador. Não importa o quão rígido seja o seu mundo. Se puder ler sobre as realizações dos outros, pode criar crenças que lhe permitirão ser mais forte. 

Por isso, neste mês de março – mês em que somos amplamente cumprimentadas e homenageadas – vamos prestar mais atenção em quem nos inspira, quais são nossas referências e o que desejamos ser. A história da civilização já nos colocou como seres inferiores inúmeras vezes, não deixemos que nossas mentes nos sabotem e façam isso conosco em pleno 2019. Nós temos todas as ferramentas necessárias e o mais importante: temos umas às outras!

Conta comigo, até o próximo texto.

Abraços, Andrea Mesquita Fundadora do Território da Carne, uma Startup que busca tornar o mundo um lugar melhor para se viver através da Democratização do Conhecimento para um Consumo de Carne mais Consciente e Eficiente.

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Sobre o Autor

Andrea Mesquita

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