De mulher pra mulher: como conciliar maternidade e vida profissional no agro?

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Com a chegada da maternidade, as mulheres são desafiadas a realinhar a rotina e redefinir prioridades. E isso pode ser um desafio mas também fonte de realização pessoal e profissional

Texto: Marluce Corrêa Ribeiro- Jornalista e Redatora do Portal Agromulher

No geral, a maternidade é um “divisor de águas” na vida da mulher. Após a chegada dos filhos, a rotina se intensifica, o misto de emoções toma conta desde a gestação e a mistura de ansiedade e alegria toma espaço em uma realidade onde tudo é novidade. A mulher precisa reencontrar seu ponto de equilíbrio que muitas vezes fica perdido entre tantas tarefas, cuidados e novas funções que precisam ser desempenhadas para assumir o papel de mãe. Muitas mulheres se cobram muito e acabam se frustrando e tomando para si uma culpa que não lhe pertence por, muitas vezes, não conseguir desempenhar tudo aquilo que ela conseguia antes da maternidade dentro de 24 horas.

Mas com calma e com o passar dos dias, a mulher deve buscar entender o processo pelo qual ela está passando e enxergar o quanto ela tem se superado e o quanto ela tem sido brilhante por se dedicar tanto aos filhos, à família, aos afazeres da casa e ao trabalho. A sensação de superação e de realização pessoal são extremamente importantes para que essa mulher alcance seu bem-estar e se sinta feliz com sua qualidade de vida e com sua relação maternal recém-estabelecida.

Dentro de todo esse turbilhão de sensações, quando tudo parece começar a entrar nos eixos, para muitas mulheres, é hora de voltar ao trabalho. E, mais uma vez, a sensação de culpa pode surgir como uma cobrança de que ela deveria e gostaria de estar mais presente ao lado do filho. Mas como lidar com tudo isso? Como superar esse momento, muitas vezes dramático, sem sentir essa culpa? Como encontrar o equilíbrio e fazer esse retorno ao trabalho ser mais leve e prazeroso?

Uma boa alternativa é a mulher, agora também mãe, pensar e relembrar o que a faz realizada profissionalmente, o quanto ela gostava do que ela fazia no trabalho antes da gravidez, o quanto ela vai se sentir bem sabendo que está fazendo algo que ela domina, que ela gosta e que a fará reencontrar habilidades que podem ter ficado camufladas pelas novidades da maternidade. É extremamente importante que a mãe cuide do seu bem-estar para que os seus filhos também sintam o reflexo dessa satisfação. Alinhar e equilibrar aspectos como vida profissional, amorosa e lazer é extremamente importante para que não haja sérios conflitos entre os diversos âmbitos da vida da mulher com a chegada da maternidade.

Mas e no mundo do agronegócio? Em uma rotina tão intensa e muitas vezes imprevisível, como as agro mulheres conseguem conciliar maternidade e vida profissional? Continue sua leitura e conheça a história de agro mulheres fortes e determinadas que conciliam esses dois importantes âmbitos da vida feminina.

Realidades distintas

As mulheres do agro também têm realidades distintas dentro e fora do mercado de trabalho. Cada uma com seus desafios, oportunidades, facilidades ou dificuldades. Algumas têm um horário de trabalho mais flexível que outras podendo ficar mais tempo em casa; outras nem tanto; algumas têm com quem deixar os filhos para ir trabalhar; outras ainda têm quem as ajudem com os afazeres da casa; já algumas não têm essa ajuda e precisam ter ainda mais “jogo de cintura” para conciliar tudo. Vamos conhecer algumas dessas realidades?

Mãe do Bernardo, de 3 anos, Amanda Battistella, formada em Administração, nascida e residente na cidade de Não-Me-Toque -RS, é administradora da propriedade rural da família e se considera privilegiada por poder ter uma grande flexibilidade em seu trabalho por atuar na empresa familiar. “Além de poder trabalhar em home office, posso levar meu filho a campo e posso fazer meus horários”, comenta ela. Além disso, Amanda conta com uma funcionária doméstica por meio turno que permite que ela tenha 4 horas para solucionar o máximo de coisas que conseguir para adiantar suas pendências no trabalho.

Apesar de ter sua família sempre ligada ao agro, Amanda relata que começou a trabalhar no agro em 2016, como assistente de sua mãe, Lizelote Battistella, que é dona do negócio. Essa inserção de Amanda no agro veio justamente durante a gravidez. “Organizei documentos, fluxo de caixa, históricos, enquanto aprendia como era o funcionamento da lavoura. Depois de um ano precisei assumir temporariamente a gestão, junto com meu irmão Rodrigo. Além da total confiança da Lizelote, contamos com a ajuda da nossa equipe. Cada um somava. As decisões eram tomadas de forma conjunta. E a equipe foi bem sucedida nesse período que durou dois anos. Assim que a Lizelote reassumiu os negócios em 2019, segui na administração da propriedade”, relata ela.

Com uma realidade um pouco diferente, a mãe do Pedro Henrique, de 1 ano e 11 meses, Gabriela dos Santos, é formada em técnico em agropecuária e estudante de Agronomia, mora em santo Antônio do Planalto – RS e atua no departamento técnico da Roos, trabalhando com assistência a campo. Gabriela trabalha com assistência técnica desde 2007 e observa diversas mudanças no cenário do agro para as mulheres.

“A mulher tem ganhado espaço por ser detalhista, ter o olhar clínico e observador. Além disso, as mulheres têm buscado cada vez mais especialização e conhecimento que tem sido um diferencial e tem dado maior espaço para nossa atuação. Muitas mulheres estão se preparando para tocar os negócios agrícolas ou pecuários. Hoje, a mulher está cada vez mais no campo, buscando soluções para o meio”, aponta ela.

E dentro da realidade da assistência técnica, Gabriela relata que a chegada do filho mudou muito a sua vida. “Quando tinha apenas a questão profissional e o meu marido, era diferente. A chegada do Pedro Henrique mudou muito a minha vida porque sempre tem alguém à espera da gente. Temos responsabilidades maiores, muitas vezes a criança fica doente à noite, tem que levar ao médico e tem toda a atenção também. É preciso flexibilizar os horários também. Muitas vezes o meu horário de almoço é rápido e tenho que dar atenção ao filho e conciliar com as tarefas de casa. Minha vida mudou em 360 graus. Para mim, a chegada do meu filho foi a maior alegria. Eu e meu marido sempre planejamos isso, então cada tempo com o nosso filho é muito valioso. A gente dá prioridade ao nosso filho. E ainda tem o lado profissional. Temos que conciliar tudo isso”, relata a colaboradora da Roos.

Planejamento e equilíbrio

Em uma dupla ou até tripla jornada de trabalho, o planejamento é a base de tudo para conseguir conciliar todas as atividades, funções e pendências do dia e da noite. Amanda Battistella conta como ela planeja sua rotina e como isso impacta no seu rendimento. “Antes de começar a trabalhar já planejo o que vou fazer e seleciono as prioridades. Os assuntos que não consigo encaixar naquelas quatro horas em que minha funcionária cuida da minha casa, tento resolver por telefone e e-mail ou fica para o próximo dia. Busco resolver os problemas com certa antecedência, pois deixar para a última hora costuma gerar um estresse desnecessário. Tento equilibrar o tempo para as tarefas da casa e do trabalho. Não consigo ser perfeita, mas me dedico para dar meu melhor. Tenho uma ótima rede de apoio e sei que sou privilegiada. Quando vejo que não vou conseguir dar conta de executar algo no prazo, peço ajuda. Considero que a conciliação da vida pessoal e profissional é um ‘desafio natural’”, relata a administradora.

Gabriela dos Santos, assim como Amanda, destaca que é indispensável organizar seu tempo e horários. “É necessário que nós mulheres tenhamos um aproveitamento constante do tempo, mantendo sempre o bom humor, a alegria, a perseverança e o desejo de conquistar o que buscamos. É necessário então programar o seu tempo, dar atenção e foco em cada coisa, planejar e focar nos objetivos, priorizar as atividades e também saber separar o pessoal do profissional”, salienta ela.

Estratégias femininas

Manter o foco e buscar aprender sempre novas habilidades que podem contribuir com o resultado final são estratégias que podem contribuir para manter uma rotina equilibrada das mulheres que são mães. Para Amanda, o foco é extremamente importante para a qualidade e eficiência do cumprimento das tarefas. “Minha estratégia é me manter focada no que é possível fazer. Fazer bem feito e apenas uma vez. Analisar o que é realmente importante e necessário, além de não procrastinar. Penso que, muitas vezes, nosso trabalho pode ser simplificado e ter um resultado muito bom. Sou sincera sobre minhas limitações, comigo e com os outros. Tenho aprendido muito com meu marido, Cristiano, que é um profissional incrível e compartilha conhecimento comigo. Minha mãe também me ensina muito sobre habilidades pessoais e de liderança. O meu aprendizado está vindo na forma de experiências e planejo, em breve, voltar a estudar, um MBA talvez”, planeja a mãe de Bernardo.

Para Gabriela a maternidade mudou toda a rotina e prioridades da família. “A gente, como mãe, redobra o trabalho para dar maior conforto e melhor educação para o filho, tenta se fazer presente, sabendo que tem alguém que depende de você. Trabalhando com mais ênfase e vindo a crescer como mãe e como profissional, sempre tentando dar o melhor de si a todas as tarefas do dia a dia”, comenta.

Como a maternidade pode contribuir com o lado profissional da mulher?

Apesar dos inúmeros desafios, a maternidade leva a mulher à esferas onde ela nunca tinha estado antes, apresenta a ela sentimentos e habilidades que são intensificadas e desenvolvidas dia após dia dentro do relacionamento de mãe e filho. Para Amanda, o maior benefício trazido pela maternidade é entender melhor as pessoas e melhorar os relacionamentos. “As habilidades que reparei que melhoraram após a maternidade foram a paciência e também a gestão do meu tempo. Costumo questionar o que eu fazia com tanto tempo que eu tinha antes de ser mãe”, comenta ela. Em meio aos inúmeros benefícios, os desafios se mantêm. E para ela, o maior desafio é “fazer mais com o tempo que tem disponível, de maneira equilibrada e sem gerar stress”.

 

Para Gabriela, a maternidade despertou algumas novas habilidades, inclusive no relacionamento com as clientes. “A maternidade despertou em mim maior agilidade no que eu faço dentro do meu lado profissional. O fato de ser mãe também gera mais intimidade com as mulheres que estão nas propriedades rurais. Sendo mãe, a gente consegue entrar mais na questão familiar, ter mais assuntos em comum e trocar experiências”, explica.

Agro mulheres: mães e profissionais em tempo integral

Seja no campo, no escritório, nos laboratórios, nas corporações, nas indústrias, ou onde quer que as agro mulheres estejam, elas seguem o ritmo de um agro que não para. Com carga horária muitas vezes extensa, com tarefas que não podem ficar para amanhã pois a chuva está para chegar e o produtor precisa e quer os produtos a tempo e a hora para colocar a semente na terra, com semeadoras ou colheitadeiras para regular ou com animais para tratar, cuidar e até mesmo socorrer em emergências, independentemente de estar fora do horário comercial, as mulheres do agro assumem suas responsabilidades e se desdobram para cumprir suas funções. Ao chegar em casa, muitas delas precisam “se despir” da função de profissionais do agro para assumir, agora fisicamente presente, o papel de mãe e esposa, e ainda, em muitos casos, cuidar da casa. E em meio a tantas tarefas, o olhar, o abraço e o beijo amoroso dos filhos quando elas chegam em casa, fazem essas mulheres terem cada dia mais certeza que o maior amor do mundo está dentro da sua casa.

Gostou de conhecer a história dessas agro mulheres e suas oportunidades e desafios como mães? Acompanhe a campanha “De mulher pra mulher” e conheça mais histórias inspiradoras das agro mulheres em diversos âmbitos da vida pessoal e profissional.

 

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Sobre o Autor

AgroMulher

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