segunda-feira, dezembro 17

Conheça Evanete Peres, publicitária que exerce papel de liderança no agronegócio

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O blog Mulheres Agricultoras de Sucesso entrevistou Evanete Peres, que venceu obstáculos e que é um exemplo de superação no agronegócio e na vida. A publicitária, cafeicultora há mais de 20 anos, faz parte da direção da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado de Araguari e Região (Coocacer), exercendo um papel de liderança no setor da agricultura.

Você tem uma história de superação, não é?

Nasci com uma deficiência visual, não enxergo com um dos olhos. Passei pelo que hoje chamam “bullying” na escola. Diziam que eu “fritava o bife e olhava o gato”, o que rendeu muitas brigas e cabeças quebradas. Quando estudava na universidade, a 400 km de casa, fato raro para uma mulher na década dos anos 1970, levei um tombo de motocicleta que deixou sequelas, me impossibilitando de ter filhos. A solução foi tranquila, encontrei um homem que já tinha dois filhos e que me deu quatro netos. Vivemos juntos há 35 anos e ele sempre me incentivou a encarar todos os desafios.

Fale mais de sua história acadêmica e dos desafios superados…

Cursei Publicidade e Propaganda, fiz pós-graduação em Administração de Empresas e atuei nos mercados de São Paulo e Rio de Janeiro, basicamente no terceiro setor. Adoro gente! A vida agitada e insegura do Rio de Janeiro, e a busca por qualidade de vida nos trouxeram para Araguari onde a minha família produzia café. Não cogitava trilhar esse caminho, mas meu pai colocou uma fazenda de café no meu colo e disse “toma que o filho é seu e você tem cinco anos para aprender a ser cafeicultora”. Grande desafio!

Como é ser mulher e conseguir superar os preconceitos na cafeicultura?

Tão difícil quanto aprender sobre café foi ser aceita e respeitada numa atividade essencialmente masculina e liderar um grupo de colaboradores, quase totalmente composto por homens. Porém, logo percebi que o que era dificuldade poderia se transformar em oportunidade. Num mundo totalmente masculino é mais fácil ser lembrada quando se é mulher. Sem dúvida! Mais tarde, pela ordem natural das coisas, passei a gerir também a parte de meus pais, além de zelar pela qualidade de vida deles. É quando os pais se tornam filhos e nós filhos, por amor e gratidão nos tornamos pais de nossos pais!

O que você transformou nas propriedades?

As Fazendas se chamam Paraíso, e quando assumi, a sede era muito feia e triste, sem jardim e sem portão. Entretanto, os negócios iam bem até perdermos quase uma safra inteira numa chuva de granizo. Já tínhamos um jardim e portão, por decisão minha, mas não tínhamos recursos para tocar a próxima safra e, então percebi que os desafios iam além de se ter um belo jardim e um imponente portão. Passamos a depender de crédito bancário. Tornei-me especialista em gestão e em relacionamentos com bancos. Perdi o medo de dever.

Você teve um problema de saúde e mais uma vez se superou?

Pessoalmente, para agravar a situação, descobri um câncer bastante raro que me custou três cirurgias e vigilância constante. Mas isso não me abateu e avisei o meu médico que, salvo se ele morresse antes, trimestralmente vamos nos ver nos próximos 20 ou 30 anos. O câncer também tem seu lado bom, põe cor na vida, ensina a valorizar tudo e cada momento, e faz a gente ter uma pressa louca de viver! Mais uma vez tive que me superar e tinha pressa; os negócios não podiam parar e passei a preparar meus principais colaboradores para terem mais capacidade de decisão e me suprir em um eventual problema.

Como você atua no trabalho?

Ninguém sabe tudo e nem faz nada sozinho; se cercar de profissionais especializados é fundamental para se obter bons resultados. Por isso conto com quatro consultores, cada um responsável por uma área de atuação, e a sinergia e o comprometimento dos meus colaboradores são fundamentais. Conto com um grupo enxuto que está comigo há muito tempo e que constroem nossas realizações. Voltando aos negócios, precisava agir. Decidi buscar a certificação das fazendas visando agregar valor a produção. Fomos precursores de certificações no Cerrado Mineiro e hoje as fazendas têm cinco certificações internacionais.

Como pensa a gestão no agronegócio?

Tenho hoje a consciência de que a gestão do negócio não se limita “da porteira para dentro”. Gargalos e desafios também estão “da parteira para fora”. Assim é fundamental estar constantemente antenada com tudo o que acontece a nossa volta, como por exemplo, os aspectos políticos, econômicos, legais, sociais, tecnológicos e ambientais. Sempre me preocupei em acompanhar às necessidades de mudanças tecnológicas e assim, decidi modernizar os equipamentos e adotei ações sustentáveis como, o uso racional da água na irrigação, a reciclagem do lixo e o monitoramento de matas e dos animais silvestres. Hoje temos também um campo experimental visando buscar as melhores variedades adaptadas para a Região do Cerrado.

Você também tem uma preocupação social muito grande…

Desenvolvi um projeto social com a escola municipal de ensino básico que fica próxima à fazenda. A escola é frequentada por filhos dos meus colaboradores e de colaboradores de outras propriedades, além defilhos de pequenos produtores do entorno. O projeto chamado “Sementes do Futuro” consiste na valorização do homem do campo e sua nobre tarefa de alimentar o mundo, cuidados com meio ambiente, higiene e saúde, técnicas de manejo da cultura do café, garantindo a sustentabilidade e o fortalecimento dos valores das famílias rurais.

Você também participa de outras entidades e atividades?

Entendendo a complexidade do setor, bem como as oportunidades que ele oferece, sou parte da Diretoria da Coocacer-Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado-Araguari, onde armazeno, preparo e comercializo o que produzo. Assim atuo na parte intermediária da cadeia café e visando completar essa cadeia, criei com mais três sócios a Nuance Cafés Especiais, uma torrefação com foco em qualidade. Tenho outras atividades como: Conselheira Administrativa da Federação dos Cafeicultores da Região do Cerrado Mineiro, desde o seu início. Além disso, sou Diretora da Associação Comercial de nossa cidade e participei da criação e da organização, por nove edições, da FENICAFÉ, até hoje, um dos maiores eventos da cafeicultura brasileira. Sou membro da WEAmericas – Mulheres Empreendedoras das Américas e do Caribe, desde o início, em 2012. É um grupo criado pelo Departamento de Estado Americano, idealizado pela Sra. Hilary Clinton, com o objetivo de integrar, qualificar e promover a troca de experiências dessas mulheres. Foram escolhidas em média três representantes de cada país. O convite e a escolha partiram do Departamento de Agricultura da Embaixada Brasileira. Sou a única produtora de café da WEAmericas e tenho a honra de poder divulgar a Região do Cerrado Mineiro e sua história de sucesso nesse grupo.

Você idealizou um projeto interessante. Fale sobre ele.

Desenvolvi um projeto que tem como objetivo sensibilizar pessoas de fora da atividade cafeeira e mostrar como é uma fazenda de café, como permanecer num negócio que nem sempre é remunerador, que exige muito investimento, cuidado, trabalho, dedicação e acima de tudo muita paixão. Recebo grupos de estudantes universitários de vários cursos, visitantes estrangeiros, e a última visita que recebi era de um grupo composto por deficientes visuais, uma experiência fantástica e emocionante. Descrever para eles os equipamentos e os processos da lavoura e da colheita de café de maneir aclara e agradável foi um desafio muito gratificante. Não são as limitações que nos dificultam a vida e sim, os limites que nós nos impomos.

O que pensa do seu trabalho e como o projeta no futuro?

Ter seu trabalho reconhecido é o que todo ser humano almeja. Escolhida pelo seu presidente, recebi do CNC-Conselho Nacional do Café, a comenda “Mérito Agropecuário” no ano de 2015. Vinte anos atrás, não imaginava que o café me faria tão feliz e realizada, mas não pense que paro por aqui, tenho grandes planos para o futuro. Afinal, nesta atividade, estou presente da lavoura a xícara.

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Sobre o Autor

Vanessa Sabioni

Graduada em Egenharia Agrônoma e Mestre em Fitopatologia pela Universidade Federal de Viçosa – MG. Atualmente cursa o MBA em Marketing ministrado pela Esalq-USP. CEO e Fundadora da Rede Digital AgroMulher.

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