segunda-feira, julho 23

Angela Escosteguy: Uma entusiasta da pecuária orgânica

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +

Angela Escosteguy é médica veterinária pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestre em Ciências Alimentares pelo Instituto Nacional Agronômico de Paris/França. É sócia-fundadora e atual diretora do Instituto do Bem-Estar – IBEM, que tem o objetivo de promover a qualidade de vida dos humanos e animais, assim como a preservação do planeta, através de ações relacionadas com educação, sustentabilidade e responsabilidade social.

Na entrevista Angela fala um pouco sobre sua caminhada acadêmica e profissional, desde o interesse na medicina veterinária até a fundação do IBEM, assim como sobre a sua visão dos temas relacionados à agricultura orgânica, sustentabilidade, bem-estar animal e qualidade de alimentos.

No decorrer da sua formação acadêmica, lhe foram apresentados os temas aos quais você se dedica agora, como as questões de sustentabilidade e a pecuária orgânica?

Não, durante a minha formação acadêmica, especificamente no curso de medicina veterinária, nenhuma das questões que eu trabalho agora foram discutidas, creio que até porque os sistemas de criação não estavam ainda tão intensificados e estes problemas ainda não tinham tomado a proporção que têm agora.

Estas preocupações com o impacto ambiental das criações, com o bem-estar dos animais e com possíveis resíduos de medicamentos nos alimentos são temas relativamente novos que surgiram com mais força nos últimos anos, justamente devido ao impacto dos sistemas de criação mais intensificados como os confinamentos.

Como foi que você decidiu seguir a área de medicina veterinária e como você acabou se interessando em pecuária orgânica?

Desde pequena eu sempre adorei os animais e estar na natureza, e sempre quis ser veterinária. Pouco após a formatura fui trabalhar no Ministério da Agricultura, onde iniciei trabalhando com qualidade de alimentos e tive a oportunidade de fazer um mestrado na França sobre leite e laticínios. A minha dissertação do mestrado foi sobre resíduos de antibióticos no leite e este tema foi um divisor de águas na minha cabeça e na minha carreira profissional. Até hoje lembro quando o professor apresentou a lista de possíveis temas para as dissertações e aquele tópico parece que brilhou para mim. Todos os outros se referiam a queijos e processamento, mas aquele me fascinou na hora. Acho que talvez tenha a ver com minha missão de vida. Me tocou muito, saber que produtos usados na criação dos animais tais como antibióticos, hormônios, vermífugos e desinfetantes poderiam ser encontrados na carne, no leite, nos ovos, no mel, e ter consequências muito ruins para os consumidores. Logo nós que cuidamos de animais de produção com o objetivo principal de bem alimentar a humanidade! Isto precisava ser corrigido. A partir daí eu comecei a estudar a toxicologia das drogas usadas e a buscar soluções de como se poderia combater as doenças, as parasitoses e os problemas da criação de animais sem usar estes tóxicos. E nesta busca encontrei a agricultura orgânica e os sistemas orgânicos de produção animal, e me apaixonei por esta área.

O que é, e no que se baseia a produção animal agroecológica e orgânica?

Então, justamente me apaixonei por esta área por ser uma proposta preventiva e não curativa e por ter um olhar holístico de todo o contexto, abrangendo o cuidado e respeito com a natureza, com os animais e com todas as pessoas envolvidas, incluindo os consumidores lá longe nas cidades. Como é um sistema preventivo, o bem-estar dos animais é fundamental. Os animais são como nós, como nossas crianças: se estão tranquilos, bem alimentados, bem abrigados e num ambiente limpo eles não devem adoecer. Em boas condições a probabilidade dos animais terem alguma doença/enfermidade são muito menores que em um sistema em que eles estão estressados, confinados, onde não podem se movimentar e tomar sol, por exemplo. E no caso de eventualmente algum problema acontecer e haver a necessidade de usar algum remédio, os medicamentos permitidos são os naturais como os homeopáticos e os fitoterápicos.

A produção orgânica vem se disseminando no Brasil? Quais fatores a influenciam?

Sim, vem ocorrendo um crescimento (da produção orgânica) assim como no resto do mundo devido à demanda crescente de alimentos orgânicos.Pela preocupação com a qualidade do alimento e por não querer encontrar veneno no alimento é o principal motivo. Em segundo lugar, é a preocupação com o meio ambiente, com as questões ambientais, as contaminações do solo e da água, a perda de biodiversidade… E mais recentemente, tem surgido a preocupação com o bem-estar dos animais, pois nos sistemas convencionais os animais são confinados, às vezes mal tratados, enquanto que nos sistemas orgânicos o bem-estar é fundamental, os animais têm que ter espaço, têm que poder tomar sol, caminhar, se relacionar e executar as necessidades naturais de sua espécie.

Quais são os argumentos dos produtores, técnicos e pesquisadores que contestam o sistema de produção orgânica?

Eles não acreditam que seja possível criar animais saudáveis e produtivos sem o uso de drogas químicas. Na verdade ocorre falta de informação, pois como o estudo deste sistema de produção não está nos currículos da veterinária, da zootecnia e da agronomia, as pessoas desconhecem seus princípios, suas metodologias e resultados. Mas pouco a pouco, tanto no Brasil quanto em outros países, surgem bons exemplos de criações orgânicas com animais saudáveis e produtivos e também se aumenta a oferta e a demanda de cursos e oficinas técnicas nesta área.

Como a agropecuária orgânica pode contribuir com a agricultura familiar?

Me parece que ela (a agropecuária orgânica) é um sistema extremamente adequado, pois não precisa de tantos insumos de fora, o que diminui o custo de produção e ao mesmo tempo é muito mais sadia, pois não tem risco de contaminação de pessoas, intoxicação de animais ou de águas. E ainda proporciona uma agregação de valor, uma vez que o alimento orgânico tem um produto com valor de mercado superior. Ela também verifica a questão social, pois os empregados têm que ter carteira assinada, as crianças têm que ir pra escola e etc. Por isso o sistema orgânico é um sistema que valoriza e traz muitos benefícios aos produtores familiares e à sociedade no entorno e também para as grandes empresas e fazendas, uma vez que utiliza insumos mais saudáveis e agrega valor ao alimento final, independente do tamanho da propriedade.

A pecuária é apontada como uma das principais fontes da emissão dos gases do efeito estufa. O que pode ser feito em relação a este aspecto?

Na verdade, a produção animal tanto pode provocar quanto sofrer influência das mudanças climáticas. É impossível não reconhecer que a adoção de um sistema de produção de alimentos sustentável é crucial para a sobrevivência da humanidade no planeta. Entretanto, as acusações contra a pecuária estão ocorrendo uma forma generalizada como se todas as criações de animais fossem prejudiciais ao ambiente. E isto não é verdade. A maneira como os animais são criados e manejados é que vai determinar se o saldo final será de liberação ou captura de carbono, ou seja, se o impacto será negativo ou positivo no ambiente. A digestão da celulose libera sim o gás metano, mas para avaliar o impacto final de um rebanho devemos analisar todo o contexto do sistema produtivo. As pastagens retiram carbono do ar para realizar a fotossíntese e compor folhas, caules, raízes e sementes. Por isso, o sistema de criação de animais em pastagens bem manejadas, no seu conjunto tem saldo final de captura de carbono apesar da liberação do metano pelos animais. O mesmo não ocorre nos confinamentos, pois embora os animais alimentados com ração e grãos liberem menos metano que alimentados em pastagens, o conjunto do sistema libera mais carbono, pois ocorre emissão de gases e carbono em várias etapas: na produção de grãos, no processamento e transporte da ração e concentrados, no uso de equipamentos de iluminação, ventilação, suprimento de água e ração e também a produção de metano pela fermentação anaeróbica do acúmulo dos dejetos.A própria FAO, em 2013 publicou Relatório onde reconhece o potencial de captura de carbono das pastagens e recomenda a adoção de sistemas agroecológicos e orgânicos de criação de animais.

Há a predominância de homens ou mulheres em alguma área específica da veterinária ou da zootecnia? À que você atribui esse fato?

Quando eu fiz faculdade, havia predominância de homens, mas agora, pelo que eu tenho visto, a predominância de mulheres é marcante. Parece que isto vem ocorrendo em todas as profissões com o empoderamento das mulheres. Acho que a veterinária é uma ótima profissão para as mulheres, até mesmo pela capacidade biológica que temos de entender seres que não falam, por exemplo.

Conte-nos como foi que você se envolveu na fundação do Instituto do Bem-Estar e como se desenvolveram as primeiras atividades.

Eu trabalhava no Ministério da Agricultura, mas como a legislação da produção orgânica ainda não era oficial no Brasil, ali não existia este campo de atuação. Mas eu gostava dessa área, achava importante e trabalhava nela nos fins de semana e à noite em entidades de classe da veterinária e outras instituições. Até que chegou um momento em que eu me dei conta de que para ter um resultado efetivo eu precisava estar mais estruturada. Foi então que fundamos, com um grupo de amigos, o Instituto do Bem-Estar – IBEM, que é um grande guarda-chuva para ações em prol do bem comum e melhoria de qualidade de vida de pessoas e animais, com sustentabilidade. Além de ações relacionadas com agroecologia também atuamos em outras áreas. De 2005 a 2011 ocorreu o projeto “Arte e Solidariedade”, com apresentações de músicas, danças e pequenos esquetes em hospitais, asilos, presídios, albergues… Todos eram voluntários! Foi muito gratificante. Também muito especial foi o projeto “Jardim Didático” em escolas públicas envolvendo hortas, compostagem, reciclagem, uso de plantas medicinais e bioarquitetura para crianças, adolescentes e professores.

Já nos últimos cinco anos estamos muito focados na capacitação de técnicos, produtores e estudantes em pecuária orgânica e áreas relacionadas em vários estados do país e inclusive fora, devido ao aumento da demanda e crescimento da área. Apesar da grave crise que estamos vivendo, a vida tem que seguir e precisamos estar cada vez melhor preparados para avançar na caminhada rumo a um mundo mais saudável e justo.

Compartilhar.

Sobre o Autor

Murilo Caldeira

Estudante de curso técnico em química e realiza pesquisas na área de horticultura, fertilização, adubação de solos e ecotoxicologia. Ficou em 2º (segundo) lugar na categoria de pesquisa em Ciências Agrárias na V Mostra de Ciências e Tecnologia do Instituto 3M.

1 comentário

  1. Francisco Cezar Dias em

    Boa tarde, mulheres. É com muito orgulho que encontro este espaço dedicado a vocês por entender que, apesar da demora, estão aí. Com relação a este texto da Doutora Ângela Escosteguy, fico muito apreensivo porque falta conteúdo como todos que seguem nesta linha ecologicamente correta. Quando comecei a ler, pensei que encontraria uma definição do que é produção orgânica, quer seja de animais ou vegetais. Nada além de uma afirmação de que o tema não faz parte da MV, ZOO e Agro e, é claro, fácil de entender do porque desta ausência. Porque não existe. É mais fácil de encontrar alimentos sem agrotóxicos, carne verde, etc do que orgânicos que não existem. Lembro ainda que a produção de animais confinados, no Brasil, é feita a pleno sol e que os ruminantes são herbívoros e necessitam de capim para completar seu ciclo alimentar. Mas, registro aqui que o texto segue com clareza e fácil entendimento. Parabéns Doutora.

Deixe Seu Comentário