segunda-feira, dezembro 17

Agrobiodiversidade – Conservação do patrimônio genético e dos conhecimentos tradicionais

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A agrobiodiversidade é o conjunto de espécies da biodiversidade utilizada pelas comunidades locais, povos indígenas e agricultores familiares. Estas diferentes comunidades conservam, manejam e utilizam os diferentes componentes da agrobiodiversidade. Num conceito mais sintético, a agrobiodiversidade pode ser compreendida como a parcela da biodiversidade utilizada pelo homem na agricultura, ou em práticas correlatas, na natureza, de forma domesticada ou semi-domesticada.

O conceito de agrobiodiversidade reflete as dinâmicas e complexas relações entre as sociedades humanas, as plantas cultivadas e os ambientes em que convivem, repercutindo sobre as políticas de conservação dos ecossistemas cultivados, de promoção da segurança alimentar e nutricional das populações humanas, de inclusão social e de desenvolvimento local sustentável.

A biodiversidade ou diversidade biológica é a diversidade de formas de vida engloba três dimensões de variabilidade. A diversidade de espécies, a diversidade genética que é a variabilidade dentro do conjunto de indivíduos da mesma espécie e a diversidade ecológica, que se refere aos diferentes ecossistemas e paisagens.

Isso ocorre também em relação à agrobiodiversidade, que inclui a diversidade de espécies de plantas cultivadas, como o milho, o arroz, a abóbora, o tomate e outras, a diversidade genética como variedades diferentes de milho, feijão e outros e a diversidade de ecosssistemas agrícolas ou cultivados como os sistemas agrícolas tradicionais de queima e pousio, também chamados de coivara ou itinerantes, os sistemas agroflorestais, os cultivos em terraços e em terrenos inundados e outros.

Em alguns casos, o desaparecimento de uma variedade pode não levar necessariamente à perda da diversidade genética, já que os seus genes podem existir também em outras variedades.
Mas as variedades representam uma combinação única de genes, com valor, funcionalidade e utilidade única. Estima-se ainda que a perda de uma planta pode causar o desaparecimento de quarenta tipos de animal e inseto, que dela dependem para sobreviver, além de combinações genéticas e moléculas únicas na natureza.

É isto que transgênicos colocam em risco. Por meros interesses financistas. Mas não se deseja pautar a crítica nesta dimensão. Lucro é a base do sistema social e não se deseja praticar este questionamento.

A agrobiodiversidade é essencialmente um produto da intervenção do homem sobre os ecossistemas: de sua inventividade e criatividade na interação com o ambiente natural. Os processos culturais, os conhecimentos, práticas e inovações agrícolas, desenvolvidos e compartilhados pelos agricultores, são um componente-chave da agrobiodiversidade. As práticas de manejo, cultivo e seleção de espécies, desenvolvidas pelos agricultores ao longo dos últimos 10.000 a 12.000 anos, foram responsáveis, em grande parte, pela enorme diversidade de plantas cultivadas e de agroecossistemas e, portanto, não se pode tratar a agrobiodiversidade dissociada dos contextos, processos e práticas culturais e socioeconômicas que a determinam e condicionam. Por isso, além da diversidade biológica, genética e ecológica, há autores que agregam um quarto nível de variabilidade: o dos sistemas socioeconômicos e culturais que geram e constroem a diversidade agrícola.

A perda da biodiversidade agrícola é causada sobretudo pela substituição das variedades locais e tradicionais, que se caracterizam por sua ampla variabilidade genética, pelas variedades “modernas”, de alto rendimento e estreita base genética. Segundo o referido relatório, essa é a principal causa de erosão genética (citado em 81% dos relatórios nacionais, apresentados pelos países). Desapareceram tanto espécies como as variedades cultivadas dessas espécies, e não só as espécies domesticadas pelo homem como também os seus parentes silvestres continuam a desaparecer, em virtude da rápida devastação dos ecossistemas naturais.

A perda da diversidade de raças de animais domésticos também é extremamente preocupante, se considerarmos suas inúmeras utilidades para os homens: fornecem alimentos (carnes, ovos, leite, queijos etc.), vestimentas (algodão, lãs, peles etc.), transporte etc. Os animais são também usados em práticas esportivas e como cobaias para experiências científicas, em rituais religiosos, como alimentos para outros animais (iscas para pesca, por exemplo) etc. Tal como ocorre com as plantas, o uso dos animais varia em cada cultura. Em países como a China, Vietnã e Coreia, por exemplo, a carne de cachorro é usada para alimentação humana (existindo até mesmo a crença de que melhoraria o desempenho sexual). Na China, há cinco espécies de tartaruga que são criadas em fazendas, e vendidas em mercados regionais para alimentação humana e usos medicinais. Em Singapura, o escorpião-negro frito é degustado como saboroso petisco (as altas temperaturas em que é preparado neutralizam seu veneno); a carne de canguru é servida até mesmo em pizzarias na Austrália e as formigas (principalmente a içá e a saúva), as larvas da taquara e os marimbondos fazem parte do cardápio de alguns povos indígenas amazônicos. Na Argentina come-se churrasco de testículos de touro; na Bolívia, a carne de lhama é um prato típico; e é comum encontrar, nos restaurantes da Bolívia e da Colômbia, o porquinho-da-índia assado.

A visão sistêmica dominante necessita ser alterada. Pois hoje só o consumismo garante a manutenção dos círculos virtuosos da sociedade. Aumento de consumo gera maiores tributos, maior capacidade de intervenção estatal, maior lucratividade organizacional e manutenção das taxas de geração de ocupação e renda. O consumismo precisa ser substituído pela ideia de satisfazer as necessidades dentro de ciclos.

Um outro mundo é possível, mesmo dentro da livre iniciativa. Ocorre enfatizar que nenhum manifesto é contra a livre-iniciativa. Que sempre foi e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade e a democracia. Mas uma nova visão sistêmica para o arranjo social, é determinante para garantir a vida.

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Sobre o Autor

Marianna Villaça Batista

Engenheira Agrônoma formada pela Universidade Federal de Viçosa – UFV, possui MBA Executivo em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas – FGV. Seu portfólio atualmente é na área de sustentabilidade para o meio rural, atuando como agente de assistência técnica e gerencial do Projeto Rural Sustentável, uma parceria de cooperação técnica que tem como o executor e gestor financeiro o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Possui uma experiência agrícola consolidada na área operacional/administrativa, presta consultoria e ministra cursos e palestras para o empresariamento do profissional do campo. É Professora Universitária do Curso de Agronomia da Faculdade Presidente Antônio Carlos de Teófilo Otoni/MG – UNIPAC TO.

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