Agro: mulheres na sucessão familiar

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A sucessão familiar no agro continua sendo um grande desafio para o desenvolvimento das atividades rurais e continuação da gestão por membros da própria família. Mas as mulheres têm conquistado um espaço importante no que diz respeito a assumir os negócios da família

A produção de leite da Fazenda Santa Bárbara, no interior do estado de Goiás, tem ganhado impulso por meio da inovação. O mesmo acontece com a casa agropecuária localizada em um povoado do mesmo município. E também na propriedade de gado de corte localizada no município de Silvânia, não muito longe dali. Sabe o que esses três negócios têm em comum: mulheres que estão na linha de frente, executando na prática a sucessão familiar.

Isabela, Kamylla e Marcela são três jovens mulheres que, assim como muitas outras espalhadas pelo Brasil, escolheram seguir os passos de seus pais e seus avós dentro do agro.

Isabela, técnica em agropecuária e estudante de Zootecnia encontra na formação profissional o respaldo e a capacitação que precisa para tornar a atividade leiteira, que sempre foi a fonte de renda da família, mais rentável.

Kamylla, técnica em agropecuária e estudante de Medicina Veterinária, sempre quis seguir a profissão do pai e despertou um grande interesse pela parte comercial quando começou a conhecer a realidade dos produtores que são clientes de sua família na loja agropecuária.

Já Marcela, sentiu que a experiência de seu pai somada com os conhecimentos técnicos dela tinham tudo para gerar resultados satisfatórios na fazenda da família que trabalha com pecuária, mais precisamente, com a fase de cria.

Essas mulheres são um retrato de uma realidade que até pouco tempo não era comum de ser vista no agro. Mas o cenário tem mudado. Cada vez mais mulheres têm conquistado confiança de seus pais para gerenciar seus negócios. Com muita força e resiliência, as mulheres têm mostrado sua capacitação, seu potencial e suas habilidades, demonstrando segurança para que seus pais também fiquem seguros em deixar os negócios também sob a responsabilidade de suas filhas. E essa sucessão familiar no agro envolve mais que a continuidade das propriedades, envolve o destino de várias regiões, devido ao forte papel social e cultural que o desempenho agropecuário exerce na economia de muitas regiões.

Sucessão familiar em números

A fundadora e CEO da Rede Agromulher, Vanessa Sabioni, destaca que “com independência financeira, formação acadêmica, visão ampla do negócio, somadas a sensibilidade para lidar com os problemas de divergências familiares, as mulheres estão conquistando cada vez mais espaço e respeito dentro do agronegócio brasileiro”. Vanessa ainda destaca que “segundo o IBGE, nos últimos anos muitas mulheres assumiram posições de sucessoras como herdeiras dirigentes. O número de mulheres que lideram propriedades rurais no país cresceu de 12% em 2006 para 18% em 2019. E essa participação feminina é ainda maior, chegando a 34% quando somadas as mulheres que administram o estabelecimento agropecuário junto com o companheiro”.

A CEO da Agromulher destaca que muitas vezes, a atividade da família não é o sonho do filho, mas pode ser o da filha. “E foi desta forma que as mulheres começaram a ganhar força, se qualificar e se preparar para assumir esses cargos de gestão. O estudo também mostrou que muitas das mulheres que hoje estão em cargos dirigentes ingressaram para ajudar a família em algum momento de crise”, comenta.

Muitos são os desafios

Muitos são os casos de produtores que trabalham no agro durante toda a vida, constroem um patrimônio e não encontram disposição dos filhos e/ou filhas para manterem a atividade. Definitivamente, a sucessão familiar é cheia de desafios. Desde o conflito de gerações e interesses até a resistência dos pais ou a falta de preparo ou de interesse dos filhos, as dificuldades da sucessão preenchem uma longa lista. Mas uma palavra pode colaborar para que a família consiga driblar a maioria desses problemas: PLANEJAMENTO.

Para que as filhas ou os filhos possam dar sequência na atividade, é preciso antes de tudo, que haja planejamento. É necessário fazer um levantamento da atividade, entender os pontos fortes e as dificuldades, traçar metas, designar responsabilidades dentro da própria família e definir estratégias. A partir daí, a capacitação constante, o diálogo e a troca de ideias serão os principais aliados para que a sucessão seja uma boa escolha e a atividade possa ser levada adiante.

É muito comum que os jovens que estão sendo preparados e inseridos nos negócios da família queiram implementar novas ideias, traçar novas estratégias imediatas, investir em novas tecnologias e mudar tudo drasticamente, mas o caminho deve ser um pouco mais cauteloso. Foi o que aconteceu com Marcela Dutra Fernandes e seu pai. “No começo a ideia de novas tecnologias assustou meu pai e eu percebi que eu tinha que ter calma, afinal, foram anos tocando o negócio sozinho e, de repente, chega alguém querendo mudar tudo? Percebi que esse não era o caminho. O diálogo é fundamental e mostrar resultados é ‘chave do negócio’”, relata ela.

A sucessão acontece, então, a medida que o gestor acompanha e se adapta às mudanças e modifica a tomada de decisão de unilateral para consensual. O consenso entre as partes envolvidas deve ser o ponto de partida para as decisões que envolverão o negócio.

Dessa forma, vale destacar que a sucessão também não deve ser vista como algo que determina que para uma geração tomar conta do negócio, a outra deve sair. A sucessão familiar deve ser um verdadeiro trabalho em equipe onde cada um contribui com aquilo que sabe, que possui ou que pensa. Assim, todos saem ganhando.

Marcela, a irmã do meio de uma família de 3 irmãos, tem em mente a necessidade desse trabalho em equipe. Ela e sua irmã seguem juntas o propósito da sucessão em áreas distintas da produção rural. Marcela relata que sempre foi incentivada à trabalhar para a família, dentro da atividade pecuária. Mas, como em tantas outras propriedades que vivem a sucessão familiar, muitos são os desafios.

“Só quem vive a sucessão familiar sabe dos desafios que enfrentamos, mas a vontade de fazer acontecer e dar certo é maior do que qualquer dificuldade. Trabalhamos com pecuária de cria e estamos no primeiro período de nascimentos de bezerros após o início da minha participação nos trabalhos na fazenda e não consigo encontrar palavras para demonstrar a minha felicidade de estar colhendo resultados aqui, na terra da minha vovó, no meu lugar do mundo”, conta orgulhosa.

Motivação extra para permanecer no agro

Uma das grandes contribuições da nova geração é o fato de ser mais conectada e dominar tecnologias, softwares e aplicativos. As filhas dos produtores, que são amplamente conectadas, podem contribuir muito para o aumento da produtividade, aplicando essa tecnologia aos manejos já executados pelos pais experientes. As mulheres sucessoras podem ainda contribuir com diferenciais competitivos alinhando os manejos de produção de forma a buscar um produto com valor agregado, com a aplicação de técnicas sustentáveis e evolução da propriedade e da atividade em diversos aspectos.

É o que aponta Kamylla Moreira Ribeiro, jovem sucessora da loja agropecuária da família.

“A importância do jovem no campo vem pela oportunidade de gerar um conteúdo novo, com novos resultados e novas técnicas. Renovar a mão de obra e oferecer uma maneira mais eficiente de produzir. Acredito que a forma que mais contribuímos com os negócios dos nossos pais é oferecendo a eles a tecnologia para aumentar sua produtividade e o lucro da atividade”, pontua Kamylla.

Para Isabela Fernandes Corrêa, os jovens que representam a nova geração do agro tem potencial de apresentar ideias novas e influenciar positivamente nas tomadas decisão da propriedade. Além disso, o jovem, com uma visão do todo, pode realizar a gestão da propriedade e, por meio disso, analisar os pontos fortes e aqueles que devem ser melhorados dentro da fazenda. E foi justamente quando analisou esse cenário que Isabela entendeu seu papel na propriedade da família.

“O motivo do meu interesse em auxiliar nas atividades, foi perceber que a minha opinião faz a diferença nas decisões tomadas na propriedade, foi perceber que o meu conhecimento auxilia de forma positiva”, relata Isabela.

A presença feminina como um diferencial

Além do cuidado e zelo pelos detalhes, a mulher também incentiva outras mulheres quando toma posse do seu espaço. A estudante de medicina veterinária, Marcela Dutra, enxerga de forma positiva esse empoderamento e interesse feminino pela sucessão no agro, inclusive em sua própria turma na faculdade de medicina veterinária, onde há mais mulheres do que homens, e muitas delas interessadas pela área de produção animal e pelo negócio da família. “Vejo que a cada exemplo de sucesso da mulher na pecuária, influenciamos as demais a terem coragem e seguir em frente”, analisa Marcela.

Da mesma forma, Kamylla Moreira destaca o quanto as agro mulheres têm ganhado força nos últimos tempos, com previsão de ocupar cada vez mais espaço. “No geral, enxergo que no ano de 2020 os movimentos femininos dentro do agro ganharam mais força, as mulheres receberam mais apoio e incentivo, a divulgação dos bons trabalhos realizados por mulheres dentro do agronegócio despertou a necessidade e vontade das mulheres de participar dos negócios, e também desperta a confiança das demais pessoas sobre nosso trabalho”, declara a jovem sucessora.

Desafios e oportunidades para a sucessora

As mulheres enfrentam muitos desafios no mercado de trabalho que também são comuns dentro da relação familiar ou até mesmo com os colaboradores e demais integrantes da equipe da empresa rural que essa mulher ajudará a conduzir como sucessora do negócio.

Marcela, que há dois anos começou a ajudar seu pai a cuidar dos negócios da família, destaca que o fato de os colaboradores não estarem acostumados com uma figura feminina na liderança, pode ser enxergado por muitas como um problema, mas ela vê como uma oportunidade. “Vejo isso como oportunidade para mostrar a força do nosso trabalho. Acredito muito que nós temos que fazer o que deve ser feito, da melhor maneira possível, não deixando brechas para qualquer tipo de preconceito. E assim temos a oportunidade de mostrar o nosso potencial. Somos diferenciadas na gestão, na estratégia, na inovação – tudo que precisamos para nos destacar na atividade pecuária”, salienta.

Marcela ainda conta sua experiência no início de sua inserção no processo de sucessão. “Não foi fácil. Eu tinha a solução para “tudo” mas tive que ter paciência e ir na velocidade do meu pai e isso me deixou angustiada e decepcionada. Mas mostrar resultados é a chave do negócio e, aos poucos, fui conseguindo conquistar a confiança e ter liberdade de tomar decisões sozinha”, comemora.

“As mulheres são atenciosas e multifuncionais por natureza e estamos cada vez mais entusiasmadas em cuidar do negócio da família. Não estamos querendo tomar o lugar dos homens mas somar na gestão, no planejamento e execução”, finaliza Marcela.

Para Isabela Fernandes, o principal desafio no cenário da sucessão ainda é o pré-conceito criado por outros produtores e até mesmo por representantes de empresas que não acreditam que a mulher tenha potencial de gerenciar uma propriedade assim como um homem, dificultando até mesmo negociações.

Essa visão que Isabela tem é compartilhada também por Kamylla e tantas outras mulheres que estão ingressando nos negócios da família. “Tenho encontrado um mercado ainda um pouco fechado em relação a atuação de mulheres. Ganhar espaço e mostrar um trabalho eficiente é o maior desafio. Espero, como mulher no agro, que nosso trabalho seja cada vez mais valorizado e que atuemos com cada vez mais força, mostrando bons resultados”, comenta Kamylla.

E dessa forma, mesmo com todos os desafios, as mulheres vão também ocupando seu espaço como filhas, gerentes, gestoras e empreendedoras dos negócios da família. Assim como Isabela, Kamylla e Marcela, muitas outras mulheres lutam diariamente para conquistar seu espaço no agro. E a cada dia mostram como podem fazer a diferença, onde quer que estejam.

Quer assistir o nosso vídeo que apresenta essa presença feminina como sucessoras no agro? CLIQUE AQUI ou acesse as redes sociais do Agromulher e veja todo esse conteúdo. Afinal, as mulheres também estão na sucessão familiar no agro.

Este conteúdo integra a série Agro 360º, que é uma realização Agromulher, promovida pela Ram do Brasil. Fique ligado (a) nas redes sociais da Agromulher para não perder nenhum episódio!

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Sobre o Autor

Marluce Corrêa Ribeiro

Filha de produtores rurais, técnica em agropecuária, jornalista e estudante de Agronomia.

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