A Escolha da Profissão: No fim, a água sempre segue seu “curso”

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O dia eu não me lembro exatamente. Era meio de 2004, meu último ano do colégio.

Lembro que era a última profissão de um guia que nos entregaram nos dias que antecediam os famosos testes vocacionais.

Fiz o teste. Queria ter ele aqui hoje. Quem sabe eu ainda tenha numa pasta escondida em alguma gaveta na casa dos meus pais. O resultado me decepcionou por um lado e me animou por outro. No fundo acho que só agora tenho maturidade pra compreender que estes testes ajudam a nos direcionar na vida – e isso não significa que eu concorde 100% com nossa atual filosofia de ensino.

Mesmo sem recordar os detalhes, tenho lembranças claras de que o teste apontou que eu era uma pessoa comunicativa (será?!), criativa, com facilidade para escrita, entre outras características voltadas para área de Humanas.

No entanto, eu não suportava as aulas de história, geografia, literatura, etc… desde nanica sempre respondi que seria médica veterinária! Claro que não tinha noção alguma do mercado ou o que faria profissionalmente, mas lembro de simular atendimentos aos meus cães de pelúcia, atendendo telefonemas – inexistentes – fazendo de conta que eram os proprietários dos pacientes querendo saber como eles estavam. Pra mim, seguir aquilo era mais certo que 2+2 são 4.

Alguns anos pra frente, no ensino médio, comecei a notar meu apreço por Exatas… e estranhamente por redação… ou seja, eu amava animais, biologia era uma das preferidas, mas fazer cálculos, resolver problemas de álgebra ou física e escrever textos também mexiam com meu coração! Ah sim, tarefa fácil essa de responder “o que você vai ser quando crescer” …

Voltando ao teste vocacional, vou te explicar o porquê de minha leve frustração com o resultado… eu esperava que aparecesse uma resposta definitiva. Pensava que aquele teste responderia por mim, queria decidisse algo que eu sozinha talvez não conseguiria ou não me sentia preparada. Aconteceu exatamente o contrário. Na época senti que o teste me deixou ainda mais confusa. Inclusive, não sei como é agora, mas algumas opções eram indicadas ou recomendadas, conforme análise de vocação. E nenhuma delas fazia sentido.

Com as indicações de “carreiras” em punho, abri o livrinho do Guia do Estudante e fui passando, lendo uma a uma. Lembro como se fosse hoje que tinha uma breve descrição do curso, algumas habilidades necessárias, possíveis áreas de atuação e quais universidades tinham as melhores avaliações para aquela opção.

Algumas me interessavam mais, outras menos… fui passando, folheando, refletindo, até chegar em “Medicina Veterinária”. No fundo, eu estava lendo de maneira dinâmica todas as outras esperando chegar nela.

Quando eu terminei de ler aquela página, algo aconteceu. Ou melhor… algo não aconteceu. Não senti o que esperava sentir. Não tive mais a certeza de que era a carreira que eu escolheria para o resto da vida. Aqui vale uma ressalva de como somos bobinhos quando novos! Quem disse que escolher qual faculdade cursar aos 17 anos significa fazer aquilo para todo o sempre?

Mas sim, é isso que os estudantes pensam ou que são induzidos a pensar. O fato é que, pela primeira vez, eu não me senti confiante com a resposta – quase automática – de que seria “veterinária” quando crescesse. Afinal, o “quando crescer” parece tão longe quando a gente responde a esta pergunta. Parecia que eu estava crescida e teria que pensar um pouquinho mais antes de – quase que de forma automática – dizer algo que resultaria em “olha, que lindinha, gosta de cuidar de bichinhos…”.

Segui folheando o guia, mais confusa ainda, já que o teste me apontou uma direção antes nunca apresentada e a descrição da carreira que eu sempre “sonhei” não me brilhou os olhos nem tocou meu coração como eu esperava que acontecesse.

Eu já não lembro se o livro era separado por área (exatas, humanas e biológicas) mas lembro que depois da descrição de “Medicina Veterinária”, não passaram muitas páginas e chegou na tal da “Zootecnia”. Eu confesso que naquela época – em 2004 – eu nunca tinha ouvido falar, não tinha quase nenhuma noção do que era, quem dirá conhecer alguém já formado (p.s.: eu nem sabia que o profissional de Zootecnia era chamado de zootecnista!).

Ainda na descrição – como se uma coisa fosse me preenchendo por dentro – vi que aquilo fazia sentido pra mim. Aliás, fazia sentido demais ter um curso daquele. (p.s.2: o que pra mim não faz sentido é ser colocado lá atrás, no final do livro, depois de tantas e conhecidas profissões que tirariam a atenção do aluno antes mesmo de chegar até ela!)

“É a busca de produtividade e rentabilidade na criação de animais e no desenvolvimento de produtos de origem animal (carne, ovos, leite e seus derivados)” – essa era a descrição resumida.

Foi nesta hora que eu pensei: “Achei!” depois veio o sentimento “Será? Mas eu sempre amei a veterinária, na hora H, vou trocar…?”  depois, “Nem sei se este curso tem futuro…” “E se eu me arrepender?” “Como vou justificar para todos os “adultos” que por anos se derreteram com meus cuidados com os animais da família e amigos…?” “Será que tem status?” “Será que dá dinheiro?”, e se você já passou por este momento de escolha de carreira na sua vida, vai me entender e talvez até se identifique com estes questionamentos.

Continuei lendo a descrição detalhada, onde dizia algo como:

É a busca de produtividade e rentabilidade na criação de animais e no desenvolvimento de produtos de origem animal (carne, ovos, leite e seus derivados). O zootecnista atua em toda a cadeia produtiva animal. Ele coordena a criação de rebanhos bovinos, ovinos, caprinos, suínos, aves e equinos, e faz a gestão e o planejamento agropecuário, o que inclui aspectos técnicos, como o projeto de pastagens. Promove o melhoramento genético e aplica técnicas de reprodução. Pode pesquisar nutrientes, acompanhar a fabricação de rações, vitaminas e produtos de saúde e de higiene para animais. Trabalha também na indústria alimentícia e na produção de alimentos de origem animal. Atua, ainda, como autônomo, fazendo planos de manejo animal ou dando assistência a propriedades rurais. *

*Claro que apelei para o guia de profissões online – edição atualizada, pois não me lembro palavra por palavra o que estava escrito há 15 anos atrás!

Mas eu lembro das palavras: “gestão”, “rentabilidade”, administração”, “planejamento” e isso pra mim foi o suficiente para eu me encantar pois logo pensei: “Caramba! Se eu for isso aqui na vida, vou poder trabalhar com animais e números – que eu tanto amo!”. Na minha cabeça, médico veterinário só fazia parte clínica e cirúrgica, não teria que fazer conta, ou gestão de nada… Hoje sei que estava enganada, mas possivelmente não conseguiria enxergar isso naquela época.

Mais para baixo, no canto direito da página – que era a última do livrinho – dizia assim:

“Dúvida do vestibulando

QUAL A DIFERENÇA ENTRE ZOOTECNIA E MEDICINA VETERINÁRIA?

Zootecnista tem conhecimentos focados na área de nutrição e alimentação, melhoramento genético e administração, buscando maior produtividade e rentabilidade na criação de animais. Já o médico veterinário centra-se na saúde dos animais, sendo responsável pela assistência clínica e cirúrgica e pelo controle da fabricação de produtos de origem animal.”

Aí, minha amiga leitora, nesta hora eu decidi! Era o que eu queria fazer…

Mas, lembra do teste vocacional? Pois é. Aquele teste mexeu comigo. Além disso, filha caçula de três irmãos, achei que, optando pela tal da Zootecnia, eu iria mudar demais a sequência da família e seria melhor eu fazer a mesma coisa que eles.

Filha de uma profissional de marketing e irmã de dois publicitários, chegou a hora de me inscrever para o vestibular. Adivinha o que eu fiz? Preferi seguir tudo isso e ignorar meu coração. Selecionei a opção: “Publicidade e Propaganda” e segunda opção “Jornalismo”.

No dia da prova, fui de metrô. Desci na estação errada, já estava nervosa, fiquei mais. Tive que comprar um novo bilhete, voltar à área de embarque e pegar outro trem. Ainda em tempo, cheguei no local – era a Universidade Presbiteriana Mackenzie – em São Paulo. Me imaginei lá dentro, já como aluna da instituição (que era a mesma que meus irmãos se formaram anos antes.). Por alguma razão aquilo não me preenchia, mas fui e cumpri meu dever.

O famoso “quando não é pra ser, não é” aconteceu e eu não passei na prova.

Fiquei um pouco desanimada por não ter sido aprovada, mal sabia que aquilo tudo iria ser determinante para meu futuro (inclusive para você, que possivelmente não estaria lendo este e outros textos do TC).

Conversei com meus pais que iria desencanar daquela loucura do teste vocacional ou histórico de família e iria fazer cursinho pré-vestibular para as provas de biológicas que abrangeria Medicina Veterinária e Zootecnia. Além disso, comuniquei que iria trabalhar nas horas vagas (eu organizava e trabalhava em eventos – amava essa dinâmica de coordenação, gestão, loucura de horários, etc.). Eles concordaram e eu segui assim.

Nem dois meses depois daquela rotina de cursinho, eu chamei meu pai para uma nova conversa: “minhas provas de vestibular são só no final do ano, estamos em abril e eu não quero ser infeliz até lá. O pessoal aqui é muito bitolado e eu quero poder trabalhar, ganhar meu dinheirinho e no final do ano eu me inscrevo para as provas… pode ser?”

Eu lembro com muita clareza – inclusive porque joguei isso na mesa meses depois – a resposta dele: “se você acha melhor, minha filha, faça isso. Mas depois não me venha dizer que não passou na prova por falta de estudos…”

Claro que – para uma menina de apenas 18 anos – fiquei insegura em seguir com a ideia, mas “banquei” minha decisão. Sabia que eles iriam me apoiar caso eu voltasse atrás.

Assim foi meu ano até que, novamente, em novembro eu teria que escolher qual prova fazer. Liguei o computador e comecei a preencher a inscrição na UNESP em Botucatu. Preenchi tudo e na hora de escolher o curso, descobri que poderia escolher apenas UM! Achei que poderia fazer a prova para Med. Veterinária e Zootecnia e, caso passasse nas duas, escolheria uma delas.

Coração bateu forte, mas segui minha intuição, selecionei a opção Zootecnia e mandei bala!

Ainda insegura com aquela escolha, fiz inscrição no vestibular de Med. Veterinária em uma universidade particular, em São Paulo. Pensei assim “vai que eu não passo na UNESP, pelo menos já tenho algo garantido…” Mal sabia que eu dificilmente conseguiria me formar em veterinária, e você já vai entender a razão.

No início de janeiro de 2006 começaram a sair os resultados. Lembro que a divulgação da lista de aprovação da universidade particular saiu três semanas antes da UNESP. Eu fui aprovada, em dois dias precisaria fazer a matrícula e pagar a primeira mensalidade. Isso somaria mais de R$3000,00, sem contar todo o material didático e equipamentos. Era muito claro pra mim que meus pais não conseguiriam arcar com aquilo. O curso era integral, o que não me permitiria trabalhar para ajudar a bancar os custos… ainda assim, para não perder a vaga, fui lá com minha mãe e negociamos o primeiro cheque.

Em uma semana começaram as aulas. Lá fui eu, torcendo para não gostar e para que saísse a aprovação em Zootecnia na UNESP – Botucatu. Além de ser uma universidade muito bem-conceituada, meu custo mensal seria muito mais baixo e era o curso que de fato balançou meu coração naquele dia do teste vocacional.

Nunca mais vou me esquecer da primeira aula de Medicina Veterinária nesta faculdade particular: era um esqueleto de cão em cima da mesa e uns 80 alunos na sala. Nossa, que sensação estranha. Aquela de não pertencimento, sabe? Senti que não era meu lugar.

Duas semanas de aula se passaram – eu jamais poderia contar em detalhes porque que sinceramente apaguei da minha mente – e saiu a tão esperada lista da UNESP. Meu nome? Quarta posição da lista de espera. O que era praticamente a mesma coisa que “Aprovada”! Mas ainda assim eu fiquei bem reticente. Fui com meus pais para Botucatu, sem acreditar direito até ser chamada pela diretoria para enfim assinar a matrícula…

Inicio de fevereiro de 2006, o dia que eu entrei na Zootecnia. Ou melhor, o dia em que a Zootecnia entrou na minha vida pra me mostrar como eu faria para melhorar o mundo!

O restante da história? Eu te conto numa próxima oportunidade!

Espero que este texto tenha aguçado a curiosidade sobre esta profissão linda, muito bem representada por homens e mulheres do Brasil inteiro e que me enche de orgulho!

Espero também, que com ele, você estudante em fase de definir qual curso fazer, se sinta mais leve e saiba que mudar faz parte. Que tem coisas que só com o tempo conseguimos compreender…

E por fim, a você, mulher do Agro, que luta pelos mesmos objetivos, por um sistema produtivo mais eficiente, mais limpo, mais ético, justo e com alimentos de qualidade para todos, sendo Zootecnista, Agrônoma, Veterinária, Engenheira de Produção, Dona, Gerente, Administradora, herdeira, filha, esposa, irmã ou mãe de alguém que cuida de um pedaço produtivo de terra, receba meus cumprimentos e solidariedade por toda energia depositada neste segmento tão incrível.

Este é meu texto de abertura como colunista do AgroMulher e eu estou muito feliz em compartilhar com você como foi o início da minha caminhada no universo Agro, que 13 anos depois me permitiu criar e fortalecer meu movimento através do Território da Carne, uma Startup que busca tornar o mundo um lugar melhor para se viver através da Democratização do Conhecimento para um Consumo de Carne mais Consciente e Eficiente.

Conta comigo, até o próximo texto.

Abraços, Andrea Mesquita

Fundadora do Território da Carne

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Sobre o Autor

Andrea Mesquita

3 Comentários

  1. Pingback: Elas podem por que acreditam que podem | AgroMulher

  2. Avatar
    Isabela Oliveira Frank em

    Caramba… Minha história com a Zootecnia é muito parecida com a sua, Andréa.Até me emocionei lendo aqui, lembrei de toda a minha trajetória até chegar onde estou, no 7°periodo de Zootecnia. É impressionante como Deus vai nos direcionando. Eu amo o meu curso e você é uma inspiração! Parabéns pelo trabalho maravilhoso com o Território da Carne e pelos textos!

  3. Pingback: Futuro Zootecnista: 5 passos para assumir sua posição no mundo | AgroMulher

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