A biotecnologia e sua importância para o setor agrícola brasileiro

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Texto: Giovana Dias de Sá

Adaptação: Marluce Corrêa Ribeiro

Após 16 anos da oficialização brasileira do cultivo de transgênicos, o Brasil se tornou o segundo maior produtor mundial de soja e também o segundo maior produtor agrícolas de transgênicos no mundo, marcando assim o sucesso da biotecnologia no campo.

Em 2018, o Brasil comemorou 20 anos do uso de culturas transgênicas no campo. Embora o cultivo oficial de transgênicos tenha se dado oficialmente no país em 2002, com a soja tolerante a herbicida (defensivo utilizado para controlar plantas infestantes nas lavouras), alguns produtores brasileiros já haviam adquirido sementes de soja transgênica traficadas da Argentina desde 1998.

Em 2017, o Brasil foi o segundo país que mais cultivou Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) em suas lavouras, atrás somente dos Estados Unidos. A espécie mais cultivada no Brasil foi a soja, seguida pelo milho e pelo algodão. Fonte: JAMES (2017)

Histórico

É possível dizer que uma biotecnologia primitiva não científica surgiu há muitos anos junto com a domesticação de culturas vegetais, no início da agricultura, permitindo assim que o homem primitivo passasse a se fixar em lugares, dando também início ao sedentarismo.

Por meio da seleção de plantas mais bonitas, vigorosas e com maiores frutos, o homem passou a realizar o que chamamos hoje de seleção artificial.

Com a seleção artificial, possuímos hoje vegetais cujo material genético difere muito de seus ancestrais, de forma que podemos concluir que qualquer vegetal domesticado que consumimos atualmente já passou por diversas alterações genéticas.

Da esquerda para a direita: banana, berinjela e melancia antes da domesticação. Mais espécies antes da seleção artificial podem ser observadas aqui .

Por que a biotecnologia vegetal é tão relevante?

São diversos os motivos que tornam a biotecnologia uma ciência importante para a agricultura.

O mais relevante de todos talvez seja sua utilidade em possibilitar um aumento expressivo na produtividade e na qualidade de alimentos e, assim, controlar as consequências negativas do crescimento populacional.

Acredita-se que até 2050 a população mundial chegará a 9 bilhões de habitantes, o que desperta uma preocupação não somente para a produção alimentos em maior quantidade e melhor qualidade, como também na condução de uma produção certamente sustentável.

Outros fatores, como as iminentes mudanças climáticas globais, acompanhadas de outras questões como uso consciente da água, manutenção da composição do solo e manutenção da biodiversidade também mostram a necessidade da produção de espécies adaptadas a diferentes biomas, viabilizando uma oferta eficiente de alimentos ao redor do globo.

Para atender essas questões, diversas pesquisas têm sido realizadas a fim de contornar tais problemas.

A mais famosa delas talvez seja o Golden Rice , ou “arroz dourado”, desenvolvido para a produção de betacaroteno (que se converte em vitamina A) com o intuito de reduzir os altos níveis de cegueira infantil causada pela deficiência de vitamina A na Ásia.

O Brasil também tem um importante papel nas pesquisas com biotecnologia vegetal: a diversidade de biomas, solos e climas do país possibilitam pesquisas promissoras com diversas espécies.

Embrapa, órgão brasileiro de pesquisa, está distribuída pelo país desenvolvendo diversas ferramentas eficientes para o setor agropecuário. O mesmo vale para as universidades nacionais.

Golden Rice (à esquerda) é o maior exemplo da engenharia genética de plantas que pode auxiliar na nutrição humana, com o aumento das concentrações de betacaroteno, precursor da vitamina A. Fonte: Cornell

Aplicações da biotecnologia vegetal

A biotecnologia também está presente na agricultura sob outras formas: na produção de inseticidas biológicos, no desenvolvimento de novas moléculas capazes de melhorar as práticas do manejo agrícola, nas técnicas de melhoramento genético, nos marcadores moleculares e na produção de novas características vegetais por meio de técnicas de DNA recombinante.

Com a evolução das pesquisas relacionadas à biotecnologia agrícola, tem sido possível a inserção de novas tecnologias que auxiliam não só na produção de alimentos, mas que também aliam a agricultura a diversos outros setores produtivos.

Dessa forma, tem-se observado que as principais finalidades da biotecnologia vegetal atual baseiam-se nos seguintes princípios: na sustentabilidade, uma prática agrícola que esteja junto a técnicas de cuidados ao ambiente e da promoção de uma balança ecológica adequada; na segurança alimentar, baseada na produção de alimentos com qualidade e quantidade suficientes para alimentar todo o planeta, com substâncias essenciais como vitaminas, lipídios, carboidratos, e outros; e na produção de novos materiais, como biofármacosbiocombustíveis e bioplásticos produzidos a partir de insumos de origem vegetal.

As possíveis limitações do uso de OGMs no campo

Porém, nem tudo são flores: existem diversas questões a serem muito estudadas e discutidas no que diz respeito à engenharia genética de plantas.

Embora 20 anos seja um tempo razoável, é necessária a investigação real das possíveis consequências do plantio e do consumos das espécies geneticamente modificadas, bem como de outros efeitos como a possibilidade dessas espécies passarem seus genes para variedades convencionais (o que denominamos fluxo gênico) e o uso intenso de defensivos agrícolas, que pode estar indiretamente relacionado ao uso de transgênicos.

No Brasil, por exemplo, o plantio do arroz geneticamente modificado foi duramente criticado devido à sua capacidade de polinizar variedades nativas da mesma espécie.

O futuro

A compreensão de paradigmas genéticos tem se tornado uma ferramenta científica de grande importância para as pesquisas com biotecnologia agrícola.

Nos últimos anos, é notório o avanço constante das pesquisas devido à quantidade de artigos publicados e patentes registradas, resultando em uma compreensão mais integrada e aprofundada de como processos genéticos são capazes de regular as respostas de desenvolvimento das plantas e como elas se relacionam com o meio ambiente.

Assim, esses fatos mostram a existência de várias possibilidades dentro da biotecnologia agrícola e seus respaldos na saúde e no bem estar humano.

Por oferecer facilidade e baixo custo, em relação à produção industrial de fármacos, combustíveis e outros materiais, o cultivo de plantas é extremamente necessário para a humanidade e aliar a biotecnologia a elas é fundamental. Porém, ainda é necessário conhecer, avaliar e mitigar seus possíveis riscos.

Apesar das dúvidas, o aprimoramento das espécies cultivadas em campo por meio da biotecnologia oferece uma série de benefícios tanto ao agricultor quanto ao consumidor final, benefícios que só tendem a aumentar com a possibilidade de inovações como as discutidas anteriormente.

Pensar num futuro em que a biotecnologia não esteja aliada à agricultura significa pensar num futuro em que a saúde e o bem estar humano estarão extremamente limitados.

Texto original: Giovana Dias de Sá – Profissão Biotec

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Sobre o Autor

Marluce Corrêa Ribeiro

Filha de produtores rurais, técnica em agropecuária, jornalista e estudante de Agronomia.

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